LEVEMENTE SURTADA

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Aos pulos.   Assim que estava esses dias o desobediente coração… Aos trancos e barrancos.

Queria escrever, queria trabalhar, queria ser normal. Mas tinham ondas, muitas que iam e viam numa total desarmonia. Muita adrenalina, coisa de incomodar. Pra que isso? Para e se pergunta no meio da sala em voz alta. Me dá sossego , preciso raciocinar, assim no tumulto não consigo  e essa emoção descabida vem de onde?

Do passado, do presente ou do futuro? Mistura tudo e acampa, é assim? Me deixa pelo menos saber, o tempo desse verbo. Futuro não existe, a Deus pertence, grita uma voz que parece vinda do além.

Meu Deus! Então ainda por cima, estava ouvindo vozes?  Seria queimada numa fogueira.

Teve vontade de beber às 4 horas da tarde. Mas como?  Isso está fora de ordem.  É surto? Parece né? Café… Toma café.  Ou chá?  Melhor chá… O chá dos ursinhos que  fazia sempre para curar as dores de amor de suas meninas. Um mix de ervas calmante. Come bolo não, ouve a voz, engorda.

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Desliga essa porra de celular.  É uma enchente de mensagens, ninguém fala mais. Só tecla. Dia todo, desde cedo. Mas pensando bem, melhor assim. Se for falar, está tão descontrolada que ficará duas horas na conversa com a amiga paciente. E conta tudo, repete, dá gargalhadas e a louca do outro lado também. São cúmplices total.

Precisa olhar a agenda. Organizar para não perder os compromissos. Tá bem… Numa rápida espiada já viu. Tem um que já perdeu. Risca, rabisca, faz círculos vermelhos ao redor do dia, tem calendário, papéis, todos repetindo a mesma coisa e nem assim. Inventa tudo. Desce correndo vai à padaria, compra pão que fica ali e endurece sem ser comido. No dia seguinte murmura: vai virar torradas.

O livro está atrasado. Vamos dar uma arrancada? Dura um segundo e o pensamento atravessa feito raio. Pra que tanta pressa?  Nem tem editora.

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Desliga a TV. Está pegando fogo a cidade, vandalizam as ruas. E daí? Já repetiram isso muitas vezes.  Está assim, já se sabe. Para que essa sede de informação? E Lula vai depor? Não, Moro adiou. Como foi? Jogaram mais uma bomba na França?  Jesus! Quando isso vai parar? E o candidato à presidente da França casou com uma mulher de 64 anos… Ele tem 39. Disso gostou. Parou para ouvir. Então o mundo romântico ainda tem vida inteligente?  Lembrou-se de Edith Piaf e Theo. Os franceses costumam amar mulheres mais velhas. Tem vários exemplos. Melhor mudar pra lá pensou. Gargalhou sozinha.  Sentou e mudou para o canal de música. Música acalma relaxa. Nem sempre. Já começou tocando uma inconveniente. Que lembrava um momento muito bom e distante. Deixou-se ficar ali, na memória, cantando junto. Era de um amor? Mas claro né? Tem sempre um romance escondido nessa cabeça de vento. Sem cura. Na seguinte, quis chorar.  Ah não! Assim não dá. Desliga a música. Chorar às 4 horas da tarde por um amor que já ficou largado lá no tempo muito passado e tomando chá? Espera lá, essa moça tá diferente como diria Chico Buarque. Nem eu conheço mais.

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Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela..*  Menos, menos.

Essa agonia pela vida diariamente, essa teimosia em carregar o sentimento do mundo, como se fosse acabar amanhã. Talvez hoje, quem sabe? A amiga chama para almoçar, a outra para jantar, tem lançamento de livro, tem tanta coisa que não dá nem tempo de fazer.  Na verdade gosta muito de sair, mas sente saudades de casa. E isso tudo gera culpa ainda por cima.  Anda vagabunda. Melhor fugir. Ir para algum lugar sem interesses ao redor, sem TV, sem telefone… Para conseguir  deter esse furacão que lhe pegou na virada desse mês. Sempre desconfiou que não batia muito bem. Mas estava administrando. De repente, perdeu as rédeas. Então lembra que não tem para onde fugir. Se for vai ficar agoniada querendo voltar. Meu coração selvagem tem pressa de viver.*

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É tanto sentir! Um exagero. O telefone toca. Jurou que não iria atender ninguém, estava tentando salvar o dia. Mas de rabo de olho viu quem era. O amigo que está precisando de um suporte.  Num gesto rápido deslizou o dedo pela tela, não podia ignorar ,era seu maluco de estimação. Virou psicóloga de plantão. Aliás, sempre teve essa mania. E como é intensa, verborrágica e desbocada, acaba falando tudo que lhe passa pela cabeça, sem dar nem tempo de filtrar e numa dessas acaba acertando. No final da conversa com certeza já está ilustrando as coisas com alguns palavrões. Acha mais fácil assim não fica subtendido. Duas horas depois, o amigo está ainda pior, sem respirar, coitado, porque ouviu tudo que precisava ouvir naquele momento de stress enfaticamente e ela estava rouca.   No entanto estava tudo resolvido. Confiante, desliga convencida que ajudou. Não sem antes ouvir: Você é minha âncora! Imagina… Se visse meu estado agora, andando pela casa desorientada, talvez mudasse de porto.

Não satisfeita, inventou uma paixão, por um Turco, e achando pouco alardeou no  facebook. As mulheres ficaram loucas e começaram também a amar o Turco. Que é um Deus. Uma Série, gente um seriado novelesco da  Netflix, que  tinha descoberto. E que tem tudo: romance dos bons, traições, invejas, fofocas, amor impossível, guerra e aquele homem ali no meio que fulmina com o olhar azul, derruba qualquer uma. Tudo falado em turco, com legendas claro. Perdeu muitas noites, obcecada por Seyit e Sura. E pior começou a querer entender a língua. Torcia para acabar.  Precisava dormir mais cedo, talvez para o dia render, e não ficar assim. Pirada pelos cantos. Seria culpa do turco?  Surto é surto.  Kivanc Tatlitug  é o nome desse ator do qual nunca tinha ouvido falar.Ficou fan. Já descobriu outra Série que ele também protagoniza. Nessa faz um  poeta, ator, tuberculoso e  também apaixonado. Essa vai ser dose. Ele está mais jovem e faz um frágil… Preferiu ficar ainda com a magia de Seyit. Por um tempo.

Até o quase namorado já tinha ligado um dia: Quem é esse Turco?

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Meninoo ! Gritou. Tá maluco, leia direito. É uma Série.  Está regulando meu tesão? Que ousadia é essa? Tenho tesão por quem quiser e para sua sorte esse é  por um homem  dentro de uma história. Ficção! Entendeu? Vai ter ciúmes de ficção também?  Desligou irritada.   Não dá certo ter namorado que tenha facebook, pensou em seguida. Acho melhor deletar .Não vai dar certo, esse ainda está com a  cabeça  retardada, conheço bem isso.  Melhor continuar sozinha.  Ou ir morar na França.

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Deus dai-me paciência! Era assim que as mulheres da série falavam quando não estavam aguentando seja lá o que fosse. E passavam a mão pelo rosto todo, como se estivessem lavando.

Pegou-se imitando. Depois de ficar nessa enrolação dia todo, viu que anoitecia. Bebeu mais chá, e resolveu comer o bolo. Foda-se para o engordar. Passaria fome dia seguinte.

Finalmente  o seriado acabou. Naquele dia perdido, perdeu também a noite, mas por uma boa causa. Ficar sonhando acordada com aquele homem irreal. Desligou triste. Era uma despedida.  Concluiu que os grandes e fortes amores são e serão sempre impossíveis. Já tinha provado desse fel. Mas teimava em desconfiar que não fosse sempre assim. Alguns venciam todas as barreiras e atravessavam os desfiladeiros mais sinuosos para um happy-end. Porém esse final lhe deu certeza.Nem em filme minha cara. Nem em filme.

Foi nesse momento que entendeu tudo. Tinha mania de heroína. Esse lado atriz   atrapalhava um pouco. Vivia romanceando até o suco que bebia. E nesse momento estava dentro de um amor impossível, mas tão impossível que dava dó, ou nó. Misturava vida real e ficção.

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Ajeitou os seis travesseiros, que tinha na cama, para jogar tudo no chão na hora de dormir, agarrou o seu preferido, engoliu seu lexotan , ligou o canal a cabo e começou a zapear á procura de um filme ou filmes, pois também tinha essa mania, via vários filmes, aos pedaços, e entendia tudo. Era tão doida que um dia seu antigo marido lhe perguntou: Como você pode entender filmes começados, filmes terminando, no meio, que loucura é isso? Me explica.

É que- respondeu tranquilamente- deles todos, faço apenas um.  Tenho minhas histórias que alinhavo, usando os personagens que mais me tocam.  E convencida continuava. Esse cara, o marido em questão, nunca se conformou.

 

Nessa noite, desse dia perdido, pegou a cena de Perfume de Mulher, a do tango, a emblemática que já tinha visto cem vezes, uma das melhores, que considerava ícone cinematográfico dentre outras, e a mais perfeita atuação, do Al Pacino que cego dançava lindamente imprimindo  incrível sensualidade e delicadeza. Esperava sempre a virada da música, quando aumentava e repetia o tan tan tan gritando e gesticulando dando voltas com o corpo  no compasso.

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Lembrou ainda que Scarlett  O’hara   em  O Vento Levou, era uma impossível  e teve um amor impossível. Elas carregam esse desassossego.

Fechou a mão sobre o travesseiro como se estivesse arrancando o rabanete da cena simbólica, e já misturando com a outra, a cena final, murmurou antes de apagar:

Amanhã será outro dia!

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*Zeca Baleiro

*Belchior

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vera Vianna

Quando trabalhava no Jornal do Brasil ao entrevistar Nelson Rodrigues foi convidada para protagonizar o filme ENGRAÇADINHA, de seu livro ASFALTO SELVAGEM, assim, ingressando na carreira artística. Hoje atriz , jornalista, blogueira e escritora.

  • IARA JIANELLI

    Ler suas crônicas é mesmo algo muito especial, a gente acaba vivenciando cada momento, como se estivesse ali, presente o tempo todo, mesmo invisível. Sabe por quê? Você é intensa, verdadeira, uma Scarlett O’hara dos nossos tempos. Ah... Como é bom ter emoções plenas, mesmo que às vezes elas nos deixem muito doidas, sem chão, sem teto, mas nos sentindo vivas! Como sempre, amei cada frase, as imagens perfeitas e também esse turco que me deixou curiosa para procurar o tal seriado na Netflix. Está certa, Vera! Viva as suas paixões intensamente! Afinal, mesmo com tanta turbulência, a vida é bela... Beijos

  • Vera Vianna

    Adorei todos os seus comentarios Iara Jianelli... aqui e no FB vc. não só leu, vc. colheu cada intenção contida em cada sentimento e cada palavra Obrigadaaaa! Fiquei super Feliz!

  • Vanda Pitol de Medeiros

    Juro que hoje me senti aliviada ufa... pensei que fosse só eu que misturasse tantas estações. Queremos viver tudo de uma vez, seria a escassez das jabuticabas? Vamos nos envolvendo com tudo, querendo mudar tudo, querendo um novo amor, querendo que a vida retrocedesse, para encontrar, em que espelho ficamos perdidas. Mas isso tem um nome ANSIEDADE, queremos, não queremos; ficamos não ficamos. Isso tem me deixado confusa, chata, sem norte. Que bom ter lido tudo isso, vejo que me encaixo, nas pessoas "normais", quem diz que não sente tudo isso mente, morre por dentro, sufocada de palavras..."Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes."(Machado de Assis) esse bruxo do Cosme velho sabia das coisas. Amei ler essa crônica, me senti em casa, continue sempre projetando ao mundo esse sentimento, para que nós simples mortais, percebamos que não estamos sós na nossa paranoia. Vou saindo pegando meu banquinho e deixando essa linda citação de Fernando Pessoa a você: "Não importa se a estação do ano muda… Se o século vira, se o milênio é outro. Se a idade aumenta… Conserva a vontade de viver. Não se chega a parte alguma sem ela."

  • Abigail Santana

    Me vi perguntando pelo tal turco.curiosidade? não!!! Pensei se ela tão inteligente gostou com certeza vou gostar.A esse texto tão revelador,doida claro que não,aí está uma mulher apaixonada e apaixonante que se preocupar com seu país que relembra os amores sem drama sem choro simplesmente tomando um chá as quatro horas mas poderia ser às dezesseis horas que nada mudaria ela continuaria sendo essa mulher apaixonada e apaixonante.Parabens linda crônica.

  • Vera Vianna

    Vanda Pitol e Abgail Santana amei os cometários, agradeço, fico honrada e feliz com as palavras cheias de carinho de vcs. E vou copiar , e colocar tbem no FB...é bonito demaissss bjsss e Obrigadaaaa

  • LAIS M. P. CUNHA

    Que crônica....! Rss. Verinha, uma vez Vera Vianna, sempre Vera Vianna... ! Achei ótima sua crônica e vi retratado todo um universo que você expressará sempre através da vida sem nenhum entrave, nem pudor, para o prazer dos seus leitores . O que lhe torna uma cronista muito especial, como resultado da pessoa que você é: com toda essa transparência espontânea, e pluralidade de emoções .... Li uma crônica com muitas nuances, e com uma verve incomparável.... Parabéns...!!!! Sim...., faço uma alusão especial, ao bom gosto de escolha da ilustração.... !

  • Vera Vianna

    LaisP. Cunha... vc. se supera a cada cometário, me deixa prosa e me faz crescer a vontade de não parar de escrever. Obrigadaaa sempre bjsss

  • Madja Mesquita Brandao

    Incrível, acredite que só hoje e as 5 da manhã consegui ler sua deliciosa crônica. Tenho andado ultimamente profundamente surtada Acordei as 4 com barulho de água, achei que era do banheiro mas era uma chuva gostosa. Fui deitar e Pluf o sono sumiu, liguei TV e para surpresa reprise de Manhattan . Nunca imaginei que passaria a essa hora..... E depois na calma do silêncio me deliciei com sua crônica. Ótima Verinha, vivi cada palavra, cada emoção. Não pare de escrever pois nos encanta e fazemos a viagem juntas. Mais uma vez parabéns. Precisamos de suas crônicas. Beijo. Para Vera Vianna Vianna.

  • Vera Vianna

    Obrigada mais uma vez Madja Mesquita Brandão. Estamos todos amiga, em surto. Porém minha maneira de ficar me esquivando dele é sempre escrever. E fico feliz que por ter companhia nessas minhas viagens. bjsss

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