ESTRANHEZAS

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Desde sempre ela esperava o mês de agosto com curiosidade e certo receio. Temia.

Sua vida sofria mudanças nessa época. Superstição?  Sim, além de ser intuitiva. Às vezes uma boa virada, ou um choque que lhe desestabilizava. Sua intuição era certeira. Um inferno astral antecipado. Não fora diferente nesse 2017-com duas vezes o número cabalístico que era sua marca no calendário. O sete era sua roleta. Às vezes russa… Outras de pura magia. No dia sete de agosto recebera um presente, já anunciado meses antes, viria com dia e hora marcados. Uma festa, uma homenagem carinhosa, um reconhecimento não esperado. Um troféu. E com ele uma inacreditável “coincidência”. A chegada de uma pessoa que já havia lhe ocupado a vida com suaves correntes e fantasias. Fazia parte desse momento, um renascimento no qual se encaixou, e nele acreditou. Fez até com que ela acreditasse em sua estória abandonada. Sonhavam juntos, á distância com projetos lindos de vida e trabalho. Entendiam-se, era uma bela conexão.  Estória quase de cinema, um elo que preenchia seus dias e um parceiro para  sonhos. Era um sonhador, e desse fascínio ela não conseguia escapar.21740198_1669422893089407_151795626743403897_n

De repente, a presença dele na data marcada tornou-se uma realidade, o que fez do troféu um Oscar. Sua única e inesquecível lembrança desse mês que a enganara.

Depois disso, os dias foram se atrapalhando sucessivamente. Agosto fazia jus ao seu slogan: o mês do desgosto. E a mudança não desejada invadiu. O encontro virou desencontro, e a mudança chegou ao pé da letra; precisava abandonar a casa que morava e ir para outro lugar, literalmente. Impacto e muita trabalheira.  Teve que deixar de lado os projetos que já estavam avançando e motivando, parar tudo, para embalar. Vida real. Caixas e mais caixas, pertences guardados, com um prazo curto para desmontar uma casa e montar outra.  Já não estava mais habituada a essa ciganice. E por aqui passava um lado emocional, de um passado recente.

Ficou pregada diante da TV durante três dias… via seu filmes, uma  droga que a tirava da realidade. Tentando administrar e teimando em entender. Precisava chegar assim tudo de uma vez? Um rompimento, uma decepção e ainda precisava encaixotar? Procurava compreender aqueles desmanches inesperados.

Passado o choque levantou, abandonou a TV e sem conseguir nenhum raciocínio lógico dedicou-se ao trabalho braçal, que é uma ótima terapia.arrumar-mala-viagem

O corpo reclamava, alergias à poeira e mofo danificavam seus olhos, a coluna travou. Injeções, remédios, e feito um robô, tinha em algumas tardes a amiga irmã, que chegava para ajudar a embrulhar, tomavam café, recordavam e choravam juntas. A mais perfeita tradução de carinho. Moravam no mesmo prédio e agora ficariam longe.

O desequilíbrio brigava com a cabeça, que precisava preservar inteira a fim de comandar essa guerra. –Vou conseguir!- gritava em voz alta, Vamos Encarar, era o comando que ouvia, porque não existia outra saída. Contava dias e horas, separando os assuntos.  Ao deitar, tudo se misturava de novo, o filme que estava pronto em sua memória criativa em excesso, o livro que escrevia e teve que interromper, os livros que começara a ler também se amontoavam pelos cantos, embaralhava sua mente exausta, e adormecia com o seu principal aliado… O lexotan. Numa dessas noites, levantou de madrugada, porque finalmente dentro desse caos encontrara o último capitulo do livro.  Que andou buscando desesperadamente .  Sentou e varou a noite escrevendo. O livro não estava pronto, mas o ponto final apareceu assim ,  num surto .   Não é para entender.

Se assim não fosse, nada seria. Mulher Maravilha ficaria com inveja. Só que lhe faltava os poderes dela.

Por quê? Era a única pergunta que lhe martelava. O que será que vem pela frente? Terei ainda tanta frente?

Perguntas sem resposta. Não tinha bola de cristal… Precisava caminhar nesse desvio e esperar lá na frente. Seria um resgate? Precisava concluir… arrematar?Christmas-hot-selling-new-arrival-promotional-3-3-Asia-clear-quartz-font-b-crystal-b-font

Três amigas serviram de rede, e a cada momento mais tenso se deixava cair em uma delas. Sentia ali o amparo confortador.

O homem, aquele amigo que viera para tentar seus novos caminhos, voltou oferecendo ajuda e fez o que mais sabia: Joga-la para cima. Era bom nisso. E entendeu aí sua aparição.

Enquanto ele falava sentado à sua frente, enxergava um vaso quebrado, mentalizando um tubo de cola. Precisava colar, mesmo rachado gostava daquele vaso.  Naquela rachadura, que era clara, vislumbrava sua confusão e a decepção primeira. Não se perdoava pelo equivoco.   Tinha talento para isso…  Era exatamente o que a incomodava. Ouvia entre caixas e malas a voz daquele menino grande perdido, tão confuso, tão intenso, tão amoroso, tão amigo, tão cheio de barulhos contidos.  Como tinha barulhos aquele moço. Será que conseguia se ouvir? Como não percebera isso? Porque criatura, você estava dividindo seus sonhos com ele e isso turva qualquer visão.  No entanto sonhos  têm  prazos de validade. Simples, disso sabia, enquanto ia se esvaziando entre as caixas repletas.

A proximidade com as pessoas nos traz inacreditáveis surpresas. São estranhos que você acredita conhecer… E a realidade é um desperdício.
Perdas… Esse agosto veio cheio de perdas. Ou livramentos?  Só o tempo poderá escolher. Agosto finalmente entrou em Setembro e a fila de abandonos sucedia-se.993293_549796201749663_334066249_n

Estávamos vivendo tempos difíceis, no limite, as pessoas assustadas, o amor sendo sufocado, porque não conseguiam entender que era esse o único escudo.  Tinham vergonha de confessar seus medos. Era mais fácil a indiferença, o faz de conta, o isolamento.

Entrou na nova morada e aproveitou então a mudança para revisitar seu estoque de lembranças, onde amarradas com fitas dormiam em uma caixa suas fotos e cartas. Os bilhetes amorosos, o amor arquivado. Releu algumas, enxergou com novo olhar, ria ou se emocionava. Essa catarse lhe tomou tempo. Mas precisava dessa viagem. Paixões já resolvidas afirmavam através de palavras e imagens que amou e foi amada, generosamente.

As muitas faces de uma mulher múltipla, multimídia, multinacional, te fazem única, exclusiva, especial em todos os cômodos da casa e da vida. bjssss- Zão- 20141385880_630411736981665_292989219_n

Bonito esse homem concordam? Lamentava terem se separado. Esse foi aquele que ela levou dois anos para conseguir deixar de verdade…  Esse bilhete foi por ocasião de um aniversário dela. Escrevia coisas lindas todo ano, há muitos anos…  Ela adorava o texto desse homem. Ela adorava esse publicitário. Escreve demais, talvez o último romântico. Esse amor permanecia e sabiam, só havia tomado outra forma, como deve ser.

Espera um pouco, não me deixa aqui ainda… Ela não aguentaria mais esse abandono, preciso concluir essa sua estória. A máquina de furar está em ação, fazendo um barulho ensurdecedor e não consigo ouvir vocês. Os quadros estão sendo pendurados. Sem eles a casa fica nua, eles precisam das paredes para expor sua vida, suas cores, quadros empacotados murcham. É igual a um encontro sem beijo na boca, ouvi-a dizendo para o rapaz que empunhava a ferramenta.

No novo endereço, rodeada de verde a natureza tem lugar destacado, ouve até o canto dos passarinhos.  Ouve o latido dos cachorros e gosta de vê-los passeando, no final de tardes. Mistura-se com eles, para afagos, faz amizades. Lembra-se de Joaquim seu último grande amigo.199327_172702772866268_46762881_n

A máquina parou… Agora posso ouvir vocês e escrever o resto da estória.

Que bom que não me abandonaram, essa moça de quem falo iria ficar mais cismada do que já anda.

 Sofria ainda pelas estranhezas, por não ter conseguido entender nada, nem os estranhos, que se apresentaram, nem esse vulcão que entrou em erupção.  Nessa reta final, parecia tudo supostamente orquestrado para lhe abrir feridas.

E abriu, mas como sempre fazia, esperava que cicatrizassem. Estava na hora de se perdoar, por gostar tanto de pessoas assim… Esquisitas, fora dos padrões, com repetições de comportamento, mal resolvidas, infinitas, fazendo do afeto alvo, apaixonadas pelo precipício e não pela estrada.

Talvez, Jung, Freud ou uma Mãe de Santo, quem sabe uma Cartomante, pudessem melhor esclarecer a participação dela nessa escolha, também repetitiva, mas já era tarde. Melhor jogar ao vento. Estranhos seriam eles, ou essa mulher teimosa que insiste em acreditar nos seus sonhos, continua se entregando sem reservas, não recuava, aumentava o volume de sua ousadia, fazendo do seu medo munição, e assim os assustava mais? Com isso colhia mágoas sentindo-se ela de repente o ser estranho, a ave fora do ninho.

Os quadros ficaram lindos, amava suas telas, estava quase tudo no seu lugar, precisava de algumas flores soltas aqui e acolá, mas já se entendia, se encontrava. Já chamava o lugar de seu.   Até sentou para escrever. Andava embotada, sem inspiração. Destravou.

Os objetos iam encontrando seus cantos e os estranhos voltavam para seus ninhos.

Fariam outros voos, em busca sempre de seus desencontros. Ela iria permanecer fiel a sua busca pelo encontro, atenta aos seus sentimentos que lhe aqueciam, e aos amores que estivessem por perto, na mesma sintonia. Sabia preencher os vazios.

Do alto de seu Shangri-Lá  apenas lamentava .11781657_655659831237224_7650521866896129462_n

Estava saindo do olho de um furacão. Desarmou-se, nem tudo valia a luta.

 

Vera Vianna

Quando trabalhava no Jornal do Brasil ao entrevistar Nelson Rodrigues foi convidada para protagonizar o filme ENGRAÇADINHA, de seu livro ASFALTO SELVAGEM, assim, ingressando na carreira artística. Hoje atriz , jornalista, blogueira e escritora.

  • Lilian Caruso

    Mulher das estrelas, que se renova a cada ciclo mais e mais, deixando todos os seus leitores curiosos e encantados com sua escrita e sua alma, por vezes pagã, por vezes cristã. Parabéns amiga querida, você é genial e sempre, doa a quem doer, renasce das cinzas, porque você MERECE ! Amo muito você !

  • Vera Vianna

    Obrigada Lilian Caruso ... minha amiga, irmã, que amoo e que tem o poder de me trazer alegria, com palavras! bjsss

  • Heloisa Smid

    a sua crônica nos deixa sem respirar até terminarmos. Não deixe nunca de escrever pois nos faz viajar nas suas histórias. Beijo grande!

  • Vera Vianna

    Obrigada Heloisa Smid! Grande incentivo e cada vez vcs. me motivam mais,,, bjsss

  • Lais Pinto da Cunha

    VERA VIANNA, A ARTISTA QUE ADORMECEU DURANTE ANOS, SÓ PODERIA RESSURGIR COM ESSA PUNGÊNCIA AQUI DEMONSTRADA NESTA CRÔNICA. ALIÁS, O QUE JÁ VEM SE REALIZANDO A UM BOM TEMPO....! PARA QUEM CONHECE O SEU POTENCIAL É MUITO VIBRANTE VER O SEU CRESCIMENTO , QUE NADA MAIS É DO QUE O EXERCÍCIO DO SEU TALENTO POSTO EM PRÁTICA... CADA DIA TORNA-SE MAIS URGENTE O ACONTECIMENTO DA EDIÇÃO DO LIVRO DE SUAS CRÔNICAS DELICIOSAS E, DE UM ESTILO ENTERNECEDOR... PARABÉNS MAIS UMA VEZ.....!

  • Constança Theolinda Teixeira de Freitas

    Que linda crônica, que relato mais intenso, desabafo inteligente, emocional, verdadeiro. Cada dia gosto mais e mais de te ler e reler. Parabéns Vera Vianna, sinto tanto orgulho e carinho por você...

  • Madja mesquita Brandao

    Verinha, só hoje pude ler sua crônica com calma. Sei que me perdoa pois conhece os motivos da minha ausência. Enfim, Amei. Verinha você pode estar sozinha,em um relacionamento, na multidão e consegue transformar seus sonhos e nos fazer sonhar........És do fogo mas se dilui como água........dona dos ares ou da ventania, sabe levitar ou pisar no chão........pés descalsos ...... Seu caminho é certo , seu destino você faz, pouco a pouco ..........Desconfiada, Atrevida,Ousada, Fera, Mulher forte, Felina, Menina.......um ser encantado , dona de suas vontades.....Não pode ser presa. Sua jaula é o mundo...........sua vida uma estrada....Estrada de luz e do bem.........Seu alimento o Amor . Parabéns e não pare nunca de escrever. Amiga e fã. Madja.

  • Vera Vianna

    Lais Pinto da Cunha! seus comentários me deixam sempre orgulhosa, por ser vc. uma poetisa, e ter um texto primoroso. Sei que é minha leitora assidua, e incentivadora importante. Obrigadaaa! concordo vom vc. venho nesse exercico aprendendo a escrever... o coração aberto tbem, ajuda. bjssss e vamos ao Livro com certeza!

  • Vera Vianna

    Constança Teixeira de Freitas minha amiga querida, que me dá força desde as primeiras crônicas e sei que torce pelo livro, que sabe, é meu projeto de sonho. Vai sair em 2018 bjsss e Obrigada sempre,

  • Vera Vianna

    Madja Mesquita Brandão... como é gostoso ler vc. me lendo.... como é bonito e como vc. escreve bem Fico emocionada e encantada a cada vez que vejo um comentário seu! Sei que está num momento bem dificil, e mesmo assim tira um tempo para fazer carinho em uma amiga. Não tenho palavras para agradecer... e sempre acho que deve ficar lá no Fb tbem exposto . Vou colocar lá.... com sua licença. Obrigdaaaaaaaa! amei cada palavra! E tem a sua alma, que invade a minha. <3

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