Categoria: Música

A CASA

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Uma casa sempre será o melhor porto seguro, o melhor refúgio, um bunker esteja ela onde estiver geograficamente. Não precisa de um Van Gogh na parede, nem estofados de seda.

Na minha casa sempre predominou a cor, espalhada entre os móveis, as estantes, repletas de discos e livros, as flores em cada canto, a cozinha animada pelo bater de panelas cheias, de comida feita com carinho, da sedução dos temperos, da alegria de receber. Mesa arrumada com requintes de beleza, em cada detalhe. Louça fina, a mais bonita sempre, porque louça não é para ficar no armário, por mais cara que seja, é para ser usada, é para dar prazer e melhorar o sabor.

Na minha casa a alegria imperava, o barulho de gargalhadas, risos e muita conversa. Diversas, papos cabeça, ou apenas tolices ditas a esmo. Na minha casa o romance fazia morada. Os meus, os seus, os nossos. As meninas cresciam e se espalhavam pelos sofás, tapetes, camas, entre risos e às vezes lagrimas, elas ali se sentiam seguras, acolhidas, sem medo de confidencias, sem medo de censura, compartilhavam comigo, seus momentos de euforia ou de angústia. Minha filha e suas amigas que viravam filhas imediatamente. A mammy era a irmã mais velha, que elas admiravam, por ter a loucura que fazia parte do ser diferente que ali habitava.

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Na minha casa, a música estava sempre presente e nas pausas, íamos do drama a comédia.  Meu olhar sobre o que lhes acontecia tinha a liberdade que me acompanha, sem que elas perdessem a noção dos limites.

Foram muitas as minhas casas… Os endereços às vezes mudavam, entre Rio, São Paulo e além-mar, as caixas eram embaladas e viajavam, mas a Vida que continha voava junto, tudo se repetia em outros lugares.

Minhas casas guardaram romances e paixões dilacerantes, foram cofres seguros da alegria.

Felicidade era a bagagem imprescindível, viver cada momento como se fosse o último fazia parte daquela loucura coletiva. A porta permanecia sempre aberta para os amigos e formávamos bandos, de pessoas ávidas por aconchego.  Sempre amei minhas casas, sempre amei tê-las repletas de pessoas, sempre gostei de albergar os carentes e dividir minha sede de viver intensamente.

Mas o tempo passa, sem que nem a gente sinta, imperiosas mudanças, aventuras e a necessidade de buscas me levaram para lugares diversos, sem medo de ir.

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Sinto hoje em dia saudade de casas antigas, em cada uma delas deixei um pedaço de minha história. Bem vividas, por inteiro. Lembro-me das mangueiras da Torre no Recife, na infância agitada, e o gosto das pitombas .Sentindo a carência de uma mãe que me deixou muito pequena. Do apartamento perto da Lagoa, do Sitio ermo e longe, onde plantei e flori, acolhi e aprendi a amar muitos cachorros, da casa de Cascais, uma das mais lindas, do apartamento de Milão onde fui feliz e infeliz, envolta na nebia da cidade fantástica, onde minha juventude era plena, deslumbrada com tanta informação.  Do apartamento da Alameda Franca em São Paulo, no 16º andar, com direito a lareira.  Onde a noite tomava vinho, fogo crepitando e rolando no tapete com um amor cúmplice. Como esquecer um charme desses?

Fora de ordem, essa descrição. São tempos misturados, com a memória em câmera lenta.

 

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Hoje, minha casa se reduziu, em espaço e quietude. Faz parte da mutação e do crescimento. Faz parte de encontros com menos buscas. A idade nos vai revelando que procurar sentidos, é da maior inutilidade. Começa a contagem regressiva, portanto manda o bom senso, que nada se desperdice.

Aprende-se o famoso desapego. Conservo meus quadros queridos, meus livros especiais, minhas musicas que são trilhas sonoras de todos os amores e todos os sentimentos revisitados, de vez em quando. Sem nostalgia, sem melancolia, apenas saudades. No vazio, encontro em cada canto os sonhos. Em cada céu azul de um dia que nasce a esperança e o agradecimento de estar ainda tão repleta de vontade, força e fé no que me cerca.

Hoje moro sozinha e desfruto também essa paz de estar comigo, me entendendo, me procurando, sem nenhuma interferência. A cozinha silenciou, as meninas casaram, e os amores andam por aí, cada um com seu novo caminho. Os amigos perto ou distantes, vejo de vez em quando, mas permanecem muito presente, disso não abro mão.

Os amores novos que vão surgindo, acolho agora com mais cuidado. Não é qualquer um que me alcança, tem que ter o brilho no olhar que não seja enganador, não me jogo mais no destempero, esse tempo tão consciente passou. Existe um momento em que a gente se deixa enganar, por puro prazer, até cansar e encarar que esse jogo perdeu a graça. Continuo seduzida pelos loucos e sonhadores, pelos desequilibrados como eu, pelos que jorram emoção e se arrepiam com uma cena de um filme qualquer ou uma frase de um poeta, um canto solto na voz que Deus lhes deu e invadem nosso ar, por uma coragem que invejo, por uma obstinação latente, por aqueles que não se rendem ou se entregam. E principalmente pelos que me fazem ser melhor, mais plena, me gratificam com sua luz que doam sem reservas. E têm prazer de receber o que vivi e não posso guardar. Que chegam sem cartas na manga e se houver que seja pelo menos um Ás. Que retire devagar, no momento certo, sem melodramas, ganhando o jogo com a ternura que o Amor merece.

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Fquei seletiva, fiquei exigente, quero cabeças que me deslumbrem, e corações abertos. Fiquei madura, fiquei cansada. Na maioria das vezes concordo, por puro tédio.

Aprendi um olhar indulgente, e uma compreensão que só me abandona quando encarno uma entidade muito longe de madre Tereza. Resquícios do sangue pernambucano, ou da necessidade de gritar: toma cuidado, não sou idiota, cresci.  Não piso em ovos, não tenho esse talento, sou uma estabanada nata, portanto tenho os dias de fúria que jamais me abandonarão. Mas é preciso muita provocação ou presunção de quem acha que está me ganhando duvidando da minha  inteligência. Daí aumento o salto e dou uma “Situada,” palavra que roubei de minha amiga Lilian Caruso, psicanalista e amiga de confidencias nas altas horas da madrugada. Com ela rasgo o verbo sem pudor. Ela sempre consegue me fazer enxergar pontos obscuros, que no calor da emoção, deixei passar. Precisamos de alguém que nos faça não ultrapassar os limites, é com muito humor, cuidado e sensibilidade que ela me alerta, quando estou prestes a extravasar e perder meus estribos. Dependendo do meu estado de confusão vai me dando em gotas, até que eu absorva , desligue ou levante de seu sofá Freudiano com pé em Jung e me jogue na reflexão. Fator da maior importância. A análise foi um marco divisor em minha vida, e aproveito aqui para declarar: Obrigada Lilian Caruso!  Por ser nesse momento  a amiga e terapeuta que preciso. Quando estou em um momento desses, luzes vermelhas se acendem fico louca para entornar um copo ou um balde, mas fico à espera que a emoção me dê uma chance para conseguir a frieza necessária e não deixar a pernambucana encarnar. Todo dia acordo e canto para ela subir. Rezo para conseguir um final feliz.
tumblr_lhwtk2UguW1qb1f3so1_500-thumb-500x347-112258Mas doida como sou, isso me instiga, me faz ficar mais ocupada, apostando comigo mesma, quanto tempo vou segurar. Seja qual for o resultado, já me prometi muitas coisas. Inclusive me rasgar no meio dessa sala, tendo os quadros, os livros, os poetas, as flores, talvez até os vizinhos por testemunha.

Pois é… Nessa agora casa pequena tem muito silêncio, mas o barulho que me invade está sempre me lembrando que minha festa continua. E não será por falta de espaço que ela vai se aquietar.  Ganho a rua, me misturo à multidão, converso com desconhecidos nos bancos da sorveteria, nas cadeiras da praia, nos cafés ou livrarias. Ao redor ouço a música de hoje ou de ontem, sinto o sabor das comidas que inventava, sinto no peito todas as pontadas dos amores vividos, na boca o gosto dos beijos desejados e ganhos, e no rosto de cada desconhecido os sorrisos inesquecíveis que me deixaram tonta de prazer.

Não, não é solidão, é um inventário de quem nunca desperdiçou essa coisa mágica que é viver.

Independe de espaço, em cada casa a gente cria um Mundo, basta atracar o barco jogar a ancora, ficar olhando ao redor e ir contando as marés.

Cancelar os enganos e esperar o arco-íris.

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LEVEMENTE SURTADA

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Aos pulos.   Assim que estava esses dias o desobediente coração… Aos trancos e barrancos.

Queria escrever, queria trabalhar, queria ser normal. Mas tinham ondas, muitas que iam e viam numa total desarmonia. Muita adrenalina, coisa de incomodar. Pra que isso? Para e se pergunta no meio da sala em voz alta. Me dá sossego , preciso raciocinar, assim no tumulto não consigo  e essa emoção descabida vem de onde?

Do passado, do presente ou do futuro? Mistura tudo e acampa, é assim? Me deixa pelo menos saber, o tempo desse verbo. Futuro não existe, a Deus pertence, grita uma voz que parece vinda do além.

Meu Deus! Então ainda por cima, estava ouvindo vozes?  Seria queimada numa fogueira.

Teve vontade de beber às 4 horas da tarde. Mas como?  Isso está fora de ordem.  É surto? Parece né? Café… Toma café.  Ou chá?  Melhor chá… O chá dos ursinhos que  fazia sempre para curar as dores de amor de suas meninas. Um mix de ervas calmante. Come bolo não, ouve a voz, engorda.

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Desliga essa porra de celular.  É uma enchente de mensagens, ninguém fala mais. Só tecla. Dia todo, desde cedo. Mas pensando bem, melhor assim. Se for falar, está tão descontrolada que ficará duas horas na conversa com a amiga paciente. E conta tudo, repete, dá gargalhadas e a louca do outro lado também. São cúmplices total.

Precisa olhar a agenda. Organizar para não perder os compromissos. Tá bem… Numa rápida espiada já viu. Tem um que já perdeu. Risca, rabisca, faz círculos vermelhos ao redor do dia, tem calendário, papéis, todos repetindo a mesma coisa e nem assim. Inventa tudo. Desce correndo vai à padaria, compra pão que fica ali e endurece sem ser comido. No dia seguinte murmura: vai virar torradas.

O livro está atrasado. Vamos dar uma arrancada? Dura um segundo e o pensamento atravessa feito raio. Pra que tanta pressa?  Nem tem editora.

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Desliga a TV. Está pegando fogo a cidade, vandalizam as ruas. E daí? Já repetiram isso muitas vezes.  Está assim, já se sabe. Para que essa sede de informação? E Lula vai depor? Não, Moro adiou. Como foi? Jogaram mais uma bomba na França?  Jesus! Quando isso vai parar? E o candidato à presidente da França casou com uma mulher de 64 anos… Ele tem 39. Disso gostou. Parou para ouvir. Então o mundo romântico ainda tem vida inteligente?  Lembrou-se de Edith Piaf e Theo. Os franceses costumam amar mulheres mais velhas. Tem vários exemplos. Melhor mudar pra lá pensou. Gargalhou sozinha.  Sentou e mudou para o canal de música. Música acalma relaxa. Nem sempre. Já começou tocando uma inconveniente. Que lembrava um momento muito bom e distante. Deixou-se ficar ali, na memória, cantando junto. Era de um amor? Mas claro né? Tem sempre um romance escondido nessa cabeça de vento. Sem cura. Na seguinte, quis chorar.  Ah não! Assim não dá. Desliga a música. Chorar às 4 horas da tarde por um amor que já ficou largado lá no tempo muito passado e tomando chá? Espera lá, essa moça tá diferente como diria Chico Buarque. Nem eu conheço mais.

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Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela..*  Menos, menos.

Essa agonia pela vida diariamente, essa teimosia em carregar o sentimento do mundo, como se fosse acabar amanhã. Talvez hoje, quem sabe? A amiga chama para almoçar, a outra para jantar, tem lançamento de livro, tem tanta coisa que não dá nem tempo de fazer.  Na verdade gosta muito de sair, mas sente saudades de casa. E isso tudo gera culpa ainda por cima.  Anda vagabunda. Melhor fugir. Ir para algum lugar sem interesses ao redor, sem TV, sem telefone… Para conseguir  deter esse furacão que lhe pegou na virada desse mês. Sempre desconfiou que não batia muito bem. Mas estava administrando. De repente, perdeu as rédeas. Então lembra que não tem para onde fugir. Se for vai ficar agoniada querendo voltar. Meu coração selvagem tem pressa de viver.*

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É tanto sentir! Um exagero. O telefone toca. Jurou que não iria atender ninguém, estava tentando salvar o dia. Mas de rabo de olho viu quem era. O amigo que está precisando de um suporte.  Num gesto rápido deslizou o dedo pela tela, não podia ignorar ,era seu maluco de estimação. Virou psicóloga de plantão. Aliás, sempre teve essa mania. E como é intensa, verborrágica e desbocada, acaba falando tudo que lhe passa pela cabeça, sem dar nem tempo de filtrar e numa dessas acaba acertando. No final da conversa com certeza já está ilustrando as coisas com alguns palavrões. Acha mais fácil assim não fica subtendido. Duas horas depois, o amigo está ainda pior, sem respirar, coitado, porque ouviu tudo que precisava ouvir naquele momento de stress enfaticamente e ela estava rouca.   No entanto estava tudo resolvido. Confiante, desliga convencida que ajudou. Não sem antes ouvir: Você é minha âncora! Imagina… Se visse meu estado agora, andando pela casa desorientada, talvez mudasse de porto.

Não satisfeita, inventou uma paixão, por um Turco, e achando pouco alardeou no  facebook. As mulheres ficaram loucas e começaram também a amar o Turco. Que é um Deus. Uma Série, gente um seriado novelesco da  Netflix, que  tinha descoberto. E que tem tudo: romance dos bons, traições, invejas, fofocas, amor impossível, guerra e aquele homem ali no meio que fulmina com o olhar azul, derruba qualquer uma. Tudo falado em turco, com legendas claro. Perdeu muitas noites, obcecada por Seyit e Sura. E pior começou a querer entender a língua. Torcia para acabar.  Precisava dormir mais cedo, talvez para o dia render, e não ficar assim. Pirada pelos cantos. Seria culpa do turco?  Surto é surto.  Kivanc Tatlitug  é o nome desse ator do qual nunca tinha ouvido falar.Ficou fan. Já descobriu outra Série que ele também protagoniza. Nessa faz um  poeta, ator, tuberculoso e  também apaixonado. Essa vai ser dose. Ele está mais jovem e faz um frágil… Preferiu ficar ainda com a magia de Seyit. Por um tempo.

Até o quase namorado já tinha ligado um dia: Quem é esse Turco?

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Meninoo ! Gritou. Tá maluco, leia direito. É uma Série.  Está regulando meu tesão? Que ousadia é essa? Tenho tesão por quem quiser e para sua sorte esse é  por um homem  dentro de uma história. Ficção! Entendeu? Vai ter ciúmes de ficção também?  Desligou irritada.   Não dá certo ter namorado que tenha facebook, pensou em seguida. Acho melhor deletar .Não vai dar certo, esse ainda está com a  cabeça  retardada, conheço bem isso.  Melhor continuar sozinha.  Ou ir morar na França.

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Deus dai-me paciência! Era assim que as mulheres da série falavam quando não estavam aguentando seja lá o que fosse. E passavam a mão pelo rosto todo, como se estivessem lavando.

Pegou-se imitando. Depois de ficar nessa enrolação dia todo, viu que anoitecia. Bebeu mais chá, e resolveu comer o bolo. Foda-se para o engordar. Passaria fome dia seguinte.

Finalmente  o seriado acabou. Naquele dia perdido, perdeu também a noite, mas por uma boa causa. Ficar sonhando acordada com aquele homem irreal. Desligou triste. Era uma despedida.  Concluiu que os grandes e fortes amores são e serão sempre impossíveis. Já tinha provado desse fel. Mas teimava em desconfiar que não fosse sempre assim. Alguns venciam todas as barreiras e atravessavam os desfiladeiros mais sinuosos para um happy-end. Porém esse final lhe deu certeza.Nem em filme minha cara. Nem em filme.

Foi nesse momento que entendeu tudo. Tinha mania de heroína. Esse lado atriz   atrapalhava um pouco. Vivia romanceando até o suco que bebia. E nesse momento estava dentro de um amor impossível, mas tão impossível que dava dó, ou nó. Misturava vida real e ficção.

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Ajeitou os seis travesseiros, que tinha na cama, para jogar tudo no chão na hora de dormir, agarrou o seu preferido, engoliu seu lexotan , ligou o canal a cabo e começou a zapear á procura de um filme ou filmes, pois também tinha essa mania, via vários filmes, aos pedaços, e entendia tudo. Era tão doida que um dia seu antigo marido lhe perguntou: Como você pode entender filmes começados, filmes terminando, no meio, que loucura é isso? Me explica.

É que- respondeu tranquilamente- deles todos, faço apenas um.  Tenho minhas histórias que alinhavo, usando os personagens que mais me tocam.  E convencida continuava. Esse cara, o marido em questão, nunca se conformou.

 

Nessa noite, desse dia perdido, pegou a cena de Perfume de Mulher, a do tango, a emblemática que já tinha visto cem vezes, uma das melhores, que considerava ícone cinematográfico dentre outras, e a mais perfeita atuação, do Al Pacino que cego dançava lindamente imprimindo  incrível sensualidade e delicadeza. Esperava sempre a virada da música, quando aumentava e repetia o tan tan tan gritando e gesticulando dando voltas com o corpo  no compasso.

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Lembrou ainda que Scarlett  O’hara   em  O Vento Levou, era uma impossível  e teve um amor impossível. Elas carregam esse desassossego.

Fechou a mão sobre o travesseiro como se estivesse arrancando o rabanete da cena simbólica, e já misturando com a outra, a cena final, murmurou antes de apagar:

Amanhã será outro dia!

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*Zeca Baleiro

*Belchior

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DÉCADA DE ARROMBA- CRÔNICA PARA WANDERLÉA

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Tantos anos e tantas travessias. E eis que numa tarde de domingo vou ao teatro assistir Década de Arromba, um documentário musical sobre os anos 60. E me transtorno. É uma viagem pela revolução cultural que teve início nessa década e da qual fiz parte. Entrei sem maiores expectativas, desarmada, curiosa para ver um espetáculo que vem sendo aclamado. E principalmente rever Wanderléa, a menina que junto com Roberto e Erasmo Carlos virou símbolo do movimento Jovem Guarda e numa explosão abalou o país, falando a língua dos jovens, ditou moda e  novo comportamento, trouxe uma música que contava a historia romântica da juventude que pedia mais leveza e liberdade. Tínhamos sido próximas por algum tempo quando, Luís Sergio Person, um diretor de cinema visionário apostando que aquilo tudo que via nascer era importante, que marcaria uma transformação e precisava ser documentado me convidou para fazer parte do filme. Rodamos muitas cenas, porém infelizmente o filme acabou não sendo concluído. Mas eles permaneceram dominando a cena, e viraram o maior sucesso musical, fizeram a diferença e colocaram muita gente para dançar o iê iê iê , inventado por eles.  As meninas e meninos assumiam ousados figurinos –  mini saias, botas , muitos cordões, pulseiras e anéis em todos os dedos. Os Beatles sacudiam o mundo e a Jovem Guarda sacudia o Brasil.

Aos poucos vou ficando inquieta na cadeira, percebendo que era muito mais que o show esperado. Um dos melhores musicais que já tinha visto, ultimamente. Embarcava pouco a pouco no túnel do tempo e a emoção começou a tomar conta. Eu fui testemunha de cada fato.  Acompanhei cada manchete daquela que era mostrada no telão, enquanto a música soava no palco, e um elenco primoroso e afinado, cantava e representava. Entre eles Jade Salim, a bela filha de Wanderléa.IMG-20170213-WA0000

Naquele domingo reencontrei Fellini, Mastroianni ,Glauber Rocha, Jânio Quadros, Ary Barroso, Carmem Miranda, o Festival da Canção, a Chegada do homem á lua, Cauby Peixoto, Edith Piaf, Elvis Presley,Gil, Caetano, Maysa, Tom, Vinicius, Vandré e claro os Beatles e muitos mais. Dez anos que desfilavam bem ali na minha frente, lindas homenagens e manchetes inesquecíveis fruto de uma fantástica pesquisa.  Um divertido e emocionante passeio musical. Que mexe com nossos sentidos, traz sentimentos arquivados, nos faz cantar, querer dançar, e até chorar. Lágrimas boas de intensa saudade.  Passeiam ali, durante 3 horas ricos personagens, que foram o divisor, a vanguarda que surgia. Marcando com muita música, poesia, cinema, teatro, uma nova cultura. Até o Golpe de 64, que deixou então cicatrizes de ferro e fogo. Dando lugar às canções de protesto.     Mas o amor carregava ainda sua inocência, seu romantismo, e fazia com que nós jovens sonhadores pretendendo mudar o mundo, não perdêssemos a ternura. Nem a esperança. O combate usou  armas poéticas. Desde 1922 já havia sido inaugurado o rádio e em seguida a televisão, que popularizou todas as expressões e deu força aquela gente sedenta de expressar seus talentos em todas as suas formas.

E eis que… No final do primeiro ato a Ternurinha como ficou conhecida, aparece.  Num vestido cor de rosa clarinho, bordado, lindíssima invade o palco e nossos corações que ela já havia sequestrado tantos anos atrás.  A plateia veio abaixo, aquelas senhoras e senhores esqueceram a idade, embarcaram, cantavam, aplaudiam, a paixão acordava. Que bela aparição! Foi então que chorei pela primeira vez. A menina que conheci e não via há 50 anos, estava ali plena e radiante.

Nada se perdera percebi, estava ali guardado cada momento vivido. E todos ali presentes me acompanhavam remexendo em suas memórias. Naquelas faces marcadas, nos cabelos prateados, os olhos brilhavam embevecidos. Quantas emoções para um domingo qualquer de 2017.

Faz-se o suspense e o intervalo nos deixa na ansiedade do quero mais.   Quando ela volta, desfia seu repertório, com o mesmo carisma, sexy e linda. Wandeca domina a cena, Wandeca troca de roupa, (palmas para os figurinos de Bruno Perlatto) ela dança e canta seus sucessos, com o coro dos presentes que sabe todas as letras. Ninguém esqueceu nada.

Entramos na festa.16195281_1041988375901231_9026511672276908054_n

Já no final ela surpreende adentrando pela plateia, fala com as mulheres, abraça, renova a esperança dos homens.  No rosto o brilho da felicidade ,o sorriso terno, a alegria de estar ali, revivendo sua própria história, cercada de cúmplices.

O  amor está no ar.

O musical se compõe de 20 cenários, 300 figurinos, 24  jovens atores e 20 músicos.    Com o excelente vídeo grafismo de Thiago Stauffer, Frederico Reder assina a direção e direção de produção. Dramaturgia e pesquisa  de Marcos Nauer .Um time jovem, que faz esse belo resgate.

O grande final é a apoteose. Todos em pé, explosão total, frenéticos aplausos. Wanderléa está no seu melhor momento.             O ícone virou Diva.15590530_366972997003730_433822559177781461_n

 

Uma festa de arromba. Que completa 50 anos.

Wanderléa teve momentos bem difíceis em sua vida pessoal.   Chorei por ela, rezei por ela. Era um nome sempre presente na minha memória afetiva. Era doce, alegre, de bem com a vida. Focada, tirou todas as pedras de seu caminho e decolou.

E foi aí nesse último momento que veio a minha Prova de Fogo. Fui conduzida ao camarim da estrela pela delicada, carinhosa e gentil Joelma Di Paula que trabalha na produção e foi quem tornou esse happy-end possível.  Quando a porta se abriu um sorriso iluminado me acertou, tinha alegria no ar, e plena de delicadeza repetia: Como iria lhe esquecer? Você está igualzinha!

Morri ali, num abraço imenso que nos uniu com lágrimas teimando em descer. Era muito tempo, uma vida, e parecia que tinha sido ontem. Toda a ternura que eu guardei para te dar… e os seus cabelos… Pois é nesse momento os cabelos dela escondiam meu rosto, que queria disfarçar a emoção desse reencontro também, histórico.

Começamos a falar atabalhoadamente, querendo colocar em dia o que vivemos à distância, naqueles poucos minutos. Relembramos coisas, contei-lhe que agora estava com mania de escrever, e que essa noite iria virar crônica. Ficou surpresa, ficou contente, quis saber mais, me pediu para voltar, me segredou quanto tempo ainda iriam ficar e eu lhe prometi que voltaria. Até porque fazer essa viagem é um presente para uma cansada alma.

Sai do teatro hipnotizada carregando a luz de Wanderléa e gritei já na porta: Vai para o livro! Esse encontro vai ser capitulo do meu livro.

Recomendo a todos, é imperdível. Aos jovens aconselho que se misturem nessa plateia, para saber como era amar e viver naquela época, e ter uma aula de história. A historia de suas mães e avós.  Experimentar a ternura e a delicadeza perdidas.

É uma fiel retomada impregnada de beleza, de talentos, de acertos. Parabéns a todo o elenco, Parabéns pela iniciativa de num momento como esse que estamos vivendo, onde o ódio se alastra, nos oferecer esse oásis, essa trégua, essa levada para o coração. Sigam todos para o Teatro NET RIO! Não importa sua idade.  Lá , quando a luz apagar e as primeiras canções começarem a invadir aquela sala, teremos todos a mesma idade. A juventude de volta.16195281_1042959829137419_8143256179326601091_n

Cheguei à minha casa com uma vontade louca de  escrever sobre o espetáculo, mas na verdade, essa crônica é toda inspirada em Wanderléa, sua vitalidade, seu brilho que o tempo não levou. Corajosa como sempre foi, ela domina aquele palco, fazendo com que a gente acredite outra vez que ser feliz é possível, que envelhecemos sim, mas os sonhos têm um lugar seguro. Jogada na cama, olhei para o teto e imitei o gesto que ela sempre fez…  Palma da mão estendida… Por Favor, pare agora!  Congele Senhor Juiz.

 

                                                                     Hoje vou dormir com 18 anos.

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