Categoria: Literatura

SARAVÁ 2018

 

 

tumblr_lfci53hqlI1qg37izo1_500

 

Eram grandes as previsões e achamos exageradas as ameaças, a gente sempre quer afastar o medo e dar passagem para a Esperança. Assim fiz eu e acredito que muita gente também. Já estava tão ruim tudo, tão surreal que parecia que não iriam conseguir estragar mais a nossa festa.Conseguiram.

O Natal virou pesadelo, os encontros de amigos, de amigo oculto, coisas que sempre nos traziam alegria ficaram inviáveis.

Não temos mais sentimentos no estoque para extravasar a revolta, o ódio, a depressão e a incredulidade.  2017 foi um jogo de dominó. Sobreviver foi o grande desafio. Muitos conseguiram, sabe-se lá Deus como, outros sucumbiram, adoeceram, perderam a motivação.

Os Teimosos resistiram, não com tanta galhardia, mas não achando saída, fizeram da raiva combustível para caminhar e se salvar.  Da insanidade.

Fazendo das tripas coração, chego até Dezembro, não ainda sem temor.
Os amigos de verdade, se deram as mãos e fizeram valer uma ciranda de solidariedade. Cada qual a seu modo. Porque sinceramente, não vejo outra opção.  Voltarem-se uns contra os outros é o caminho torto que não vai levar a lugar nenhum. Pelo contrário, ficaremos cada dia mais sozinhos.Amizade

O meu ano, foi de algumas perdas e outros ganhos.  Tive dias de insônia, dias de euforia, dias de achar que tudo estava perdido, dias de ter certeza das vitórias.  Dias brasileiros . O refúgio foi  sempre otimismo. Cercada de bons amigos, de carinhos, de sementes que plantei, mesmo achando que poderiam ser erva daninhas. Sem abrir mão de ser quem sou, mesmo que muitas vezes, não fosse o politicamente correto. Jamais fui, iria começar agora? Sem chance. Digo o que penso e respeito os adversários. Sem respeito, não existe dialogo. E monólogos não combinam com uma mulher histriônica como eu.  Ouço, e muito. Calo, e nesse calar, aprendo, tenho espaço para verificar se o outro tem razão. Donos da verdade são maçantes. Ou simplesmente concordo comigo mesma. E sigo meu caminho.

Os dias foram de sucessivas surpresas: algumas boas e outras tipo trevas. De agosto em diante os ventos sopraram contra, era necessário ajustar as velas em outra direção.

Posso definir esse ano como uma caixa de pandora. O ano das prisões, delaçoes, tornozeleiras eletronicas, da Operação Lava-Jato, tendo  à frente o Juiz Sergio Moro, um Hercules moderno com  mais de 12 trabalhos.

Assédios denunciados, repúdio  aos preconceitos, homofobia, estupro e crimes antes enterrados, ganharam holofotes,com as mulheres  colocando a boca no trombone,  e alguns exageros. Porem melhor pecar pelo excesso.

Omissão é a covardia que não quer levantar do sofá.

De minha parte usei minhas defesas, atreladas a conhecida loucura.  Tirei férias de mim,  que tenho a mania  de ter opinião sobre tudo. Acordo, se tem sol e azul, já acho um ganho, se chove, Polyana acha ótimo, terei mais tempo para escrever, ler todos os livros que estão na fila, ver os muitos filmes que  me  transportam ,ir espiar o trabalho dos amigos, vibrar com cada um que está ali,  na trincheira da resistência, politicamente ou culturalmente.  São as nossas armas, pertenço a essa tribo. Vocês já sabem, mas gosto de me repetir: somos os sonhadores, os loucos, os criadores de fantasias, os doidos de pedra.  Aprendi que as palavras escritas me libertam, é uma salvação.   Com isso descubro também que não estou sozinha, cada um que atinjo e me motiva eu corro para o abraço. Também já disse isso. Tenham paciência, ando repetitiva.18342463_1206052282840990_8773267390099327518_n

Do novo lugar fiz um bunker, com inveja dos escritores americanos que vejo em muitos filmes, onde  possuem um refúgio próprio só para escrever. Lugares lindos à beira mar, ou nas montanhas, à beira de lagos cinematográficos. . Comecei até a falar inglês, para entrar no clima. Com quem? Comigo mesma, em frente ao espelho. Me achando. Deixei o surto ser protagonista.Mas não se preocupem, já voltei ao normal. Aqui  tenho todo o verde da natureza que me inspira.

Bipolaridade com certeza, não diagnosticada, mas percebida. Domada, trabalhando a percepção do limite.

Portanto falar de um ano kármico para todos nós, torna-se uma tarefa quase impossível.

Ódios exacerbados, amores renegados, demonizações, pinceladas de justiça, onde a injustiça vence, num mar de equívocos. Um hospício sem chave.

O ano das maluquices mais  bizarras.Temos que nos habituar, porque a enxurrada de acontecimentos foi grande, e tende a ficar assim. Adaptação. Palavra de ordem. Valores subvertidos. Só nos resta lamentar.

Pessoalmente confesso que vivi, meu fantasma é o tempo. Trabalhei no meu sonho, que todos sabem  é terminar meu Livro, e o pão que o Diabo amassou eu já comi, engoli, e digeri, ou apenas vomitei. Aconselho até esse vomito. Limpa mais rápido e a gente já inventa outro drama ou outra alegria dia seguinte.  Seja uma praia, conseguir pagar uma conta atrasada, um romance, uma paixão súbita que é uma excelente droga, acelera, enche a cabeça de caraminholas, depois não é nada daquilo, mas enquanto foi valeu, aumenta a libido, responsável pela criatividade e assim vai.  Na hora de cair do cavalo, espertamente se escolhe uma grama macia e com o rosto coberto de lágrimas e nostalgia nos tornamos poetas. É a fase  mais rica.

A dor . Um porre,  namoros fora de hora, colocando a palavra assédio tão em moda, no lugar certo, claro. Por que gente aqui pra nós, como vamos viver sem ser assediada?  A antiga cantada  dentro do bom gosto?  Apagar o desejo? E faz o que com o tesão?  Tesão por tudo, principalmente pela vida. Depois da queda, lambemos as feridas. Mas romance não pode faltar.

Enfim, esse 2017 zerou a alma e a paciência. No entanto, o importante sempre é o resultado. Estamos Vivos!  E livres para fazer de cada momento ruim um aprendizado. Rever conceitos faz parte.

A Síndrome do abandono que me acometeu me enchendo de medos ,exorcizei no dia do meu aniversário, que foi um dos melhores que tive ultimamente, sem muita expectativa fui cercada de amigos lindos, tomei um leve e merecido porre, comemorei a entrada do novo ciclo e a saída do inferno astral. Acordei nova.bolo niver

Dei uma cacetada no medo e nem de Alice e seu País tenho mais inveja.

O sonho do livro ganhou cor, força, amor e fé.  Colhi os retalhos de Cora Coralina, armei um varal e estão todos lá, se refazendo no sol da Esperança.

Aprendi muito, tirei forças do útero que já não tenho , enchi o saco de todos os santos que comigo convivem, mística que sou, e essa Fé foi da maior importância.  STARWAR – me disse um antigo amor- que de longe me presenteia com a espada da certeza, aquela que decepa todas as minhas dúvidas.

O bota fora de 2017 já está pronto. Um mergulho no mar, essencial, um champanhe gelado, e no coração uma imensa Gratidão.  Extensiva a todos vocês, amigos, irmãos, amores que fazem, a muralha que me blinda amenizando as dores, alavancando a coragem, às vezes enfraquecida. Uma rede, onde pulo, quico e volto, batendo as asas.

Então vamos lá: Rumo a 2018!

 

119

A LIBERDADE DAS PALAVRAS

 

o.31526

 

Me  deixa só… Com minhas fantasias, meus sonhos, meus delírios… me deixa só… Finalmente dando nova forma a meu corpo para que ele acompanhe o tamanho dos meus pensamentos, aqueles que sempre estiveram a salvo de qualquer invasão e que jamais ninguém poderá trancafiar, nem censurar, nem apagar.

Me deixa só para que eu dê passagem a minha inquietação que foi adormecida, que foi adiada e me fazia tanta falta. Para recuperar o olhar, o brilho do sorriso e o tesão na pele.

Me deixa só porque eu preciso libertar as palavras, todas as palavras que me foram cassadas.

Os palavrões, as reticências, exclamações, as letras maiúsculas, as obscenas. Quero abusar!

Finalmente estarão libertas, soltas, preciso ordená-las, ainda não se entendem… Por serem muitas, as cortadas ou cortantes perdidas ainda estranham o motivo porque foram vencidas pelo silêncio. Estão em revolução.

Tenho que ter cuidado, algumas se tornaram perigosas ou mesquinhas. Pratico o exercício da sutileza precisam encontrar o tom.

Me deixa só, porque meus delírios precisam se acomodar me alimentam, me impulsionam e sobrevivo;habitam  tantas dentro de mim que preciso me organizar, para não mais  as perder.

Nas palavras vou tecendo meus sonhos e vou carregando-os na bolsa, no bolso, na rua, no metrô, na praia, no botequim, na sala, e no elevador.  No travesseiro me dominam e na cama me fascinam.1914069_721300811339792_587561158429800379_n

Mas por favor, mantenha distância… Alcançá-las é tarefa para poucos, só os que possuem no sangue essa mesma cor, esse ritmo, esse furor.

Então agora me ouve… Para de falar… Minha cabeça está povoada não de fantasmas, mas de personagens, procurando sua luz, sua deixa, sua história.

É agora posso revelar: sou atriz! Abri meu baú. Dele tiro panos bordados, tecidos transparentes, fico nua e troco de pele.

Nesse desassossego, vou remendando, construindo aquela que de tanto sentir, foi  ficando sem voz,  mas continuava  mesmo sabendo que não era ouvida.   Foi quando de repente gritou: Foda-se! Fo-da-se!

E foi a palavra que a salvou. Um grito que espantou o medo.  Escapou e somente esse pensamento a libertou, ainda atônita tomou-se de euforia.

Hoje fica olhando para aquela fresta por onde passou e custa a acreditar.

Nela escreve… Palavras, muitas palavras sem censura e acolhida, vive delas.

Sim, essa sou eu povoando meus dias, com histórias que estavam guardadas e com as que ainda estão por acontecer. Todas comigo, sempre estiveram.

Portanto, me deixa só, tenho um encontro marcado… Preciso cuidar do cabelo, da pele, comprar um batom, mudar o esmalte, uma saia rodada, uma blusa colorida, tomar um porre, ouvir uma música, acabar aquele livro, ver um filme, dançar, abraçar um amigo, celebrar com as amigas, acudir quem for preciso, ouvir todos os sons: do mar batendo, das gargalhadas, dos passarinhos cantando, e de uma voz… tenho carência de voz.

Por favor, então entende: me dá sua boca, segura minha mão, não pergunta. Estou em constante movimento, não existe controle, são muitas as circunstâncias, as ideias me  atropelam,  não  existem verdades, somente buscas,me defendo, mas avanço ,  as mudanças doem,mas a gente  veste uma  armadura, cresce,  e a vontade de ser inteira vence. Agora você já sabe, tenho muitas vidas me esperando, não, não pergunta, embarca, estou atrasada.

43004827-Beautiful-young-woman-running-to-catch-a-train-on-the-platform--Stock-Photo