Categoria: Cultura

SARAVÁ 2018

 

 

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Eram grandes as previsões e achamos exageradas as ameaças, a gente sempre quer afastar o medo e dar passagem para a Esperança. Assim fiz eu e acredito que muita gente também. Já estava tão ruim tudo, tão surreal que parecia que não iriam conseguir estragar mais a nossa festa.Conseguiram.

O Natal virou pesadelo, os encontros de amigos, de amigo oculto, coisas que sempre nos traziam alegria ficaram inviáveis.

Não temos mais sentimentos no estoque para extravasar a revolta, o ódio, a depressão e a incredulidade.  2017 foi um jogo de dominó. Sobreviver foi o grande desafio. Muitos conseguiram, sabe-se lá Deus como, outros sucumbiram, adoeceram, perderam a motivação.

Os Teimosos resistiram, não com tanta galhardia, mas não achando saída, fizeram da raiva combustível para caminhar e se salvar.  Da insanidade.

Fazendo das tripas coração, chego até Dezembro, não ainda sem temor.
Os amigos de verdade, se deram as mãos e fizeram valer uma ciranda de solidariedade. Cada qual a seu modo. Porque sinceramente, não vejo outra opção.  Voltarem-se uns contra os outros é o caminho torto que não vai levar a lugar nenhum. Pelo contrário, ficaremos cada dia mais sozinhos.Amizade

O meu ano, foi de algumas perdas e outros ganhos.  Tive dias de insônia, dias de euforia, dias de achar que tudo estava perdido, dias de ter certeza das vitórias.  Dias brasileiros . O refúgio foi  sempre otimismo. Cercada de bons amigos, de carinhos, de sementes que plantei, mesmo achando que poderiam ser erva daninhas. Sem abrir mão de ser quem sou, mesmo que muitas vezes, não fosse o politicamente correto. Jamais fui, iria começar agora? Sem chance. Digo o que penso e respeito os adversários. Sem respeito, não existe dialogo. E monólogos não combinam com uma mulher histriônica como eu.  Ouço, e muito. Calo, e nesse calar, aprendo, tenho espaço para verificar se o outro tem razão. Donos da verdade são maçantes. Ou simplesmente concordo comigo mesma. E sigo meu caminho.

Os dias foram de sucessivas surpresas: algumas boas e outras tipo trevas. De agosto em diante os ventos sopraram contra, era necessário ajustar as velas em outra direção.

Posso definir esse ano como uma caixa de pandora. O ano das prisões, delaçoes, tornozeleiras eletronicas, da Operação Lava-Jato, tendo  à frente o Juiz Sergio Moro, um Hercules moderno com  mais de 12 trabalhos.

Assédios denunciados, repúdio  aos preconceitos, homofobia, estupro e crimes antes enterrados, ganharam holofotes,com as mulheres  colocando a boca no trombone,  e alguns exageros. Porem melhor pecar pelo excesso.

Omissão é a covardia que não quer levantar do sofá.

De minha parte usei minhas defesas, atreladas a conhecida loucura.  Tirei férias de mim,  que tenho a mania  de ter opinião sobre tudo. Acordo, se tem sol e azul, já acho um ganho, se chove, Polyana acha ótimo, terei mais tempo para escrever, ler todos os livros que estão na fila, ver os muitos filmes que  me  transportam ,ir espiar o trabalho dos amigos, vibrar com cada um que está ali,  na trincheira da resistência, politicamente ou culturalmente.  São as nossas armas, pertenço a essa tribo. Vocês já sabem, mas gosto de me repetir: somos os sonhadores, os loucos, os criadores de fantasias, os doidos de pedra.  Aprendi que as palavras escritas me libertam, é uma salvação.   Com isso descubro também que não estou sozinha, cada um que atinjo e me motiva eu corro para o abraço. Também já disse isso. Tenham paciência, ando repetitiva.18342463_1206052282840990_8773267390099327518_n

Do novo lugar fiz um bunker, com inveja dos escritores americanos que vejo em muitos filmes, onde  possuem um refúgio próprio só para escrever. Lugares lindos à beira mar, ou nas montanhas, à beira de lagos cinematográficos. . Comecei até a falar inglês, para entrar no clima. Com quem? Comigo mesma, em frente ao espelho. Me achando. Deixei o surto ser protagonista.Mas não se preocupem, já voltei ao normal. Aqui  tenho todo o verde da natureza que me inspira.

Bipolaridade com certeza, não diagnosticada, mas percebida. Domada, trabalhando a percepção do limite.

Portanto falar de um ano kármico para todos nós, torna-se uma tarefa quase impossível.

Ódios exacerbados, amores renegados, demonizações, pinceladas de justiça, onde a injustiça vence, num mar de equívocos. Um hospício sem chave.

O ano das maluquices mais  bizarras.Temos que nos habituar, porque a enxurrada de acontecimentos foi grande, e tende a ficar assim. Adaptação. Palavra de ordem. Valores subvertidos. Só nos resta lamentar.

Pessoalmente confesso que vivi, meu fantasma é o tempo. Trabalhei no meu sonho, que todos sabem  é terminar meu Livro, e o pão que o Diabo amassou eu já comi, engoli, e digeri, ou apenas vomitei. Aconselho até esse vomito. Limpa mais rápido e a gente já inventa outro drama ou outra alegria dia seguinte.  Seja uma praia, conseguir pagar uma conta atrasada, um romance, uma paixão súbita que é uma excelente droga, acelera, enche a cabeça de caraminholas, depois não é nada daquilo, mas enquanto foi valeu, aumenta a libido, responsável pela criatividade e assim vai.  Na hora de cair do cavalo, espertamente se escolhe uma grama macia e com o rosto coberto de lágrimas e nostalgia nos tornamos poetas. É a fase  mais rica.

A dor . Um porre,  namoros fora de hora, colocando a palavra assédio tão em moda, no lugar certo, claro. Por que gente aqui pra nós, como vamos viver sem ser assediada?  A antiga cantada  dentro do bom gosto?  Apagar o desejo? E faz o que com o tesão?  Tesão por tudo, principalmente pela vida. Depois da queda, lambemos as feridas. Mas romance não pode faltar.

Enfim, esse 2017 zerou a alma e a paciência. No entanto, o importante sempre é o resultado. Estamos Vivos!  E livres para fazer de cada momento ruim um aprendizado. Rever conceitos faz parte.

A Síndrome do abandono que me acometeu me enchendo de medos ,exorcizei no dia do meu aniversário, que foi um dos melhores que tive ultimamente, sem muita expectativa fui cercada de amigos lindos, tomei um leve e merecido porre, comemorei a entrada do novo ciclo e a saída do inferno astral. Acordei nova.bolo niver

Dei uma cacetada no medo e nem de Alice e seu País tenho mais inveja.

O sonho do livro ganhou cor, força, amor e fé.  Colhi os retalhos de Cora Coralina, armei um varal e estão todos lá, se refazendo no sol da Esperança.

Aprendi muito, tirei forças do útero que já não tenho , enchi o saco de todos os santos que comigo convivem, mística que sou, e essa Fé foi da maior importância.  STARWAR – me disse um antigo amor- que de longe me presenteia com a espada da certeza, aquela que decepa todas as minhas dúvidas.

O bota fora de 2017 já está pronto. Um mergulho no mar, essencial, um champanhe gelado, e no coração uma imensa Gratidão.  Extensiva a todos vocês, amigos, irmãos, amores que fazem, a muralha que me blinda amenizando as dores, alavancando a coragem, às vezes enfraquecida. Uma rede, onde pulo, quico e volto, batendo as asas.

Então vamos lá: Rumo a 2018!

 

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DÉCADA DE ARROMBA- CRÔNICA PARA WANDERLÉA

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Tantos anos e tantas travessias. E eis que numa tarde de domingo vou ao teatro assistir Década de Arromba, um documentário musical sobre os anos 60. E me transtorno. É uma viagem pela revolução cultural que teve início nessa década e da qual fiz parte. Entrei sem maiores expectativas, desarmada, curiosa para ver um espetáculo que vem sendo aclamado. E principalmente rever Wanderléa, a menina que junto com Roberto e Erasmo Carlos virou símbolo do movimento Jovem Guarda e numa explosão abalou o país, falando a língua dos jovens, ditou moda e  novo comportamento, trouxe uma música que contava a historia romântica da juventude que pedia mais leveza e liberdade. Tínhamos sido próximas por algum tempo quando, Luís Sergio Person, um diretor de cinema visionário apostando que aquilo tudo que via nascer era importante, que marcaria uma transformação e precisava ser documentado me convidou para fazer parte do filme. Rodamos muitas cenas, porém infelizmente o filme acabou não sendo concluído. Mas eles permaneceram dominando a cena, e viraram o maior sucesso musical, fizeram a diferença e colocaram muita gente para dançar o iê iê iê , inventado por eles.  As meninas e meninos assumiam ousados figurinos –  mini saias, botas , muitos cordões, pulseiras e anéis em todos os dedos. Os Beatles sacudiam o mundo e a Jovem Guarda sacudia o Brasil.

Aos poucos vou ficando inquieta na cadeira, percebendo que era muito mais que o show esperado. Um dos melhores musicais que já tinha visto, ultimamente. Embarcava pouco a pouco no túnel do tempo e a emoção começou a tomar conta. Eu fui testemunha de cada fato.  Acompanhei cada manchete daquela que era mostrada no telão, enquanto a música soava no palco, e um elenco primoroso e afinado, cantava e representava. Entre eles Jade Salim, a bela filha de Wanderléa.IMG-20170213-WA0000

Naquele domingo reencontrei Fellini, Mastroianni ,Glauber Rocha, Jânio Quadros, Ary Barroso, Carmem Miranda, o Festival da Canção, a Chegada do homem á lua, Cauby Peixoto, Edith Piaf, Elvis Presley,Gil, Caetano, Maysa, Tom, Vinicius, Vandré e claro os Beatles e muitos mais. Dez anos que desfilavam bem ali na minha frente, lindas homenagens e manchetes inesquecíveis fruto de uma fantástica pesquisa.  Um divertido e emocionante passeio musical. Que mexe com nossos sentidos, traz sentimentos arquivados, nos faz cantar, querer dançar, e até chorar. Lágrimas boas de intensa saudade.  Passeiam ali, durante 3 horas ricos personagens, que foram o divisor, a vanguarda que surgia. Marcando com muita música, poesia, cinema, teatro, uma nova cultura. Até o Golpe de 64, que deixou então cicatrizes de ferro e fogo. Dando lugar às canções de protesto.     Mas o amor carregava ainda sua inocência, seu romantismo, e fazia com que nós jovens sonhadores pretendendo mudar o mundo, não perdêssemos a ternura. Nem a esperança. O combate usou  armas poéticas. Desde 1922 já havia sido inaugurado o rádio e em seguida a televisão, que popularizou todas as expressões e deu força aquela gente sedenta de expressar seus talentos em todas as suas formas.

E eis que… No final do primeiro ato a Ternurinha como ficou conhecida, aparece.  Num vestido cor de rosa clarinho, bordado, lindíssima invade o palco e nossos corações que ela já havia sequestrado tantos anos atrás.  A plateia veio abaixo, aquelas senhoras e senhores esqueceram a idade, embarcaram, cantavam, aplaudiam, a paixão acordava. Que bela aparição! Foi então que chorei pela primeira vez. A menina que conheci e não via há 50 anos, estava ali plena e radiante.

Nada se perdera percebi, estava ali guardado cada momento vivido. E todos ali presentes me acompanhavam remexendo em suas memórias. Naquelas faces marcadas, nos cabelos prateados, os olhos brilhavam embevecidos. Quantas emoções para um domingo qualquer de 2017.

Faz-se o suspense e o intervalo nos deixa na ansiedade do quero mais.   Quando ela volta, desfia seu repertório, com o mesmo carisma, sexy e linda. Wandeca domina a cena, Wandeca troca de roupa, (palmas para os figurinos de Bruno Perlatto) ela dança e canta seus sucessos, com o coro dos presentes que sabe todas as letras. Ninguém esqueceu nada.

Entramos na festa.16195281_1041988375901231_9026511672276908054_n

Já no final ela surpreende adentrando pela plateia, fala com as mulheres, abraça, renova a esperança dos homens.  No rosto o brilho da felicidade ,o sorriso terno, a alegria de estar ali, revivendo sua própria história, cercada de cúmplices.

O  amor está no ar.

O musical se compõe de 20 cenários, 300 figurinos, 24  jovens atores e 20 músicos.    Com o excelente vídeo grafismo de Thiago Stauffer, Frederico Reder assina a direção e direção de produção. Dramaturgia e pesquisa  de Marcos Nauer .Um time jovem, que faz esse belo resgate.

O grande final é a apoteose. Todos em pé, explosão total, frenéticos aplausos. Wanderléa está no seu melhor momento.             O ícone virou Diva.15590530_366972997003730_433822559177781461_n

 

Uma festa de arromba. Que completa 50 anos.

Wanderléa teve momentos bem difíceis em sua vida pessoal.   Chorei por ela, rezei por ela. Era um nome sempre presente na minha memória afetiva. Era doce, alegre, de bem com a vida. Focada, tirou todas as pedras de seu caminho e decolou.

E foi aí nesse último momento que veio a minha Prova de Fogo. Fui conduzida ao camarim da estrela pela delicada, carinhosa e gentil Joelma Di Paula que trabalha na produção e foi quem tornou esse happy-end possível.  Quando a porta se abriu um sorriso iluminado me acertou, tinha alegria no ar, e plena de delicadeza repetia: Como iria lhe esquecer? Você está igualzinha!

Morri ali, num abraço imenso que nos uniu com lágrimas teimando em descer. Era muito tempo, uma vida, e parecia que tinha sido ontem. Toda a ternura que eu guardei para te dar… e os seus cabelos… Pois é nesse momento os cabelos dela escondiam meu rosto, que queria disfarçar a emoção desse reencontro também, histórico.

Começamos a falar atabalhoadamente, querendo colocar em dia o que vivemos à distância, naqueles poucos minutos. Relembramos coisas, contei-lhe que agora estava com mania de escrever, e que essa noite iria virar crônica. Ficou surpresa, ficou contente, quis saber mais, me pediu para voltar, me segredou quanto tempo ainda iriam ficar e eu lhe prometi que voltaria. Até porque fazer essa viagem é um presente para uma cansada alma.

Sai do teatro hipnotizada carregando a luz de Wanderléa e gritei já na porta: Vai para o livro! Esse encontro vai ser capitulo do meu livro.

Recomendo a todos, é imperdível. Aos jovens aconselho que se misturem nessa plateia, para saber como era amar e viver naquela época, e ter uma aula de história. A historia de suas mães e avós.  Experimentar a ternura e a delicadeza perdidas.

É uma fiel retomada impregnada de beleza, de talentos, de acertos. Parabéns a todo o elenco, Parabéns pela iniciativa de num momento como esse que estamos vivendo, onde o ódio se alastra, nos oferecer esse oásis, essa trégua, essa levada para o coração. Sigam todos para o Teatro NET RIO! Não importa sua idade.  Lá , quando a luz apagar e as primeiras canções começarem a invadir aquela sala, teremos todos a mesma idade. A juventude de volta.16195281_1042959829137419_8143256179326601091_n

Cheguei à minha casa com uma vontade louca de  escrever sobre o espetáculo, mas na verdade, essa crônica é toda inspirada em Wanderléa, sua vitalidade, seu brilho que o tempo não levou. Corajosa como sempre foi, ela domina aquele palco, fazendo com que a gente acredite outra vez que ser feliz é possível, que envelhecemos sim, mas os sonhos têm um lugar seguro. Jogada na cama, olhei para o teto e imitei o gesto que ela sempre fez…  Palma da mão estendida… Por Favor, pare agora!  Congele Senhor Juiz.

 

                                                                     Hoje vou dormir com 18 anos.

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ZINGARA

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Gitana….  Gipsy  ou simplesmente  Cigana. Sempre tive fascínio por essa cultura . Cheia de mistérios e simbolismos. Nem mesmo o   próprio povo,  acredito, conhece esse extenso e tão antigo  universo, onde  não se sabe onde começa a verdade e termina a lenda. Estão espalhados  por muitas regiões , muitos países, carregam as mais diversas etnias.  Todas as histórias que os rodeiam são baseadas em suposições,  informações as mais diversas , mistérios .  São conhecidos como errantes, desordeiros e até subversivos a qualquer sistema. Místicos,  descriminados,  com espírito livre e  viajantes. Sua tradição se espalhou criando um   mundo único. Povo alegre, com música e dança no sangue, inspiram.

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