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Onde está você Vera Vianna?

Passei anos ouvindo essa pergunta, e outros tantos sem responder. Mas estou aqui, sempre estive, ou quase sempre. Alma e coração sempre vagando pelo Rio de Janeiro. Mesmo quando estive morando fora, nos anos de ciganice total.Milão, Lisboa, São Paulo, São Paulo de novo. Mudava de mala e cuia.

Tinha sede de outros lugares, outras culturas, outros cheiros, outras informações.

Quando saí da frente dos refletores, tomada pela já conhecida “maldição da fama”, cansada cheia de dúvidas, conflitos e questionamentos, resolvi que a liberdade me trazia mais alegrias. Até hoje me perguntam: Por que???

Teria várias respostas, explicações defesas. Mas resumo numa frase: queria viver outras histórias, outras vidas, outros papéis, outras emoções.

Sem lenço nem documento. Anônima na multidão. É uma sensação tão fantástica, quanto alcançar o estrelato.

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Fui pescada para encarnar “Engraçadinha” do Nelson Rodrigues, escolhida pelo próprio, como já contei, e minha vida virou de ponta a cabeça, em questão de horas. Era desafio, palavra chave. Topei. E foi tudo muito rápido. Tinha apenas 17 anos e muita decisão. Virei “sexy simbol” da noite para o dia, e vamos combinar: isso era muito complicado para uma garota vivendo nos anos 60, onde costumes e tradições eram tão fechados, moralista, atrasado, para uma nova geração que surgia cheia de ideias, querendo mudar o mundo.

Lá fora, os Beatles se encarregavam disso, transformavam e mandavam sinais.

E nós aqui atores, compositores, escritores, cantores, tentávamos abrir caminhos, jogar luz, mudar cabeças, colocar essa geração para pensar.

Éramos poucos, e fazíamos parte de uma humanidade especial: os sonhadores. Vivíamos literalmente de sonhos. “A famosa frase do Glauber Rocha era um resumo: uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”.

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Felizes, éramos felizes apesar de todas as barras que tínhamos que superar, fazíamos o que gostávamos. Tínhamos convicção, coragem, juventude, sangue quente e uma chama. Aquela com a qual os artistas já nascem, e que nos guiava.

Daí essa turma começou a inovar, transformar, rever conceitos, criar, se posicionar e dar corpo a um movimento renovador e ser referência dentro da cultura brasileira.

Viraram ícones, atestaram seus talentos, sedimentaram suas histórias, tornaram-se astros, estrelas, grandes compositores, cantores, escritores, alguns com sucesso internacional, formadores de opinião. E muitos ainda estão aí incansáveis, criando e nos encantando.
Cresci no meio dessas feras. Tenho orgulho de ter feito parte dessa época, desse movimento, de ter sido cercada por brilhantes cabeças, das quais sorvia tudo que minha compreensão alcançava na minha ainda… vamos dizer: era apenas uma adolescente privilegiada.

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Estive ali pertinho deles, dos loucos, dos viajantes, dos vagabundos. Sim, porque isso não era profissão naquela época. Na cabeça de nossos pais, havia outros planos e anseios. Mas os rebeldes tinham uma causa. A qual nos dedicávamos dia e noite.
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E então surgiu Leila Diniz… O estopim foi aceso. Já chegou com uma tocha na mão, destemida, determinada, mexendo com a cabeça das mulheres, enlouquecendo os homens e colocando-os para pensar.

Revolução sexual, de costumes, de conceitos, solar, uma explosão. Faz-me falta até hoje. Ficamos muito amigas e passávamos noites conspirando entre goles de sua bebida preferida “perpermint”-aí que horror- e eu no meu bom e velho uísque mesmo. Derrubávamos o mundo, com muitas gargalhadas sempre. Leila era uma Luz intensa e virou símbolo de uma era.

E Vera Vianna onde anda mesmo? Ah sim, era disso que tinha que falar né?

Pois é… Continua interpretando seus vários papeis: casou (algumas vezes) é mãe de Vanessa, que contrariando as más línguas:  – filha de atriz, “Engraçadinha”, “Bonitinha, mas Ordinária, (sempre confundem) personagem de Nelson, escritor que foi maldito, durante muito tempo, atriz pornô, porra louca, ovelha negra , e tantos outros elogios,- deu certo. É uma historiadora com doutorado,  e me orgulha seu discernimento, e todas as fogueiras que pulou em busca de sua identidade e caminho.

Casou, é mãe de João Pedro, que foi um ato lindo de coragem, e assim acrescentou a minha vida uma nova paixão: uma criança que me renova a cada dia e me coloca no meu papel, aliás em vários :sou bruxa, sou fada, sou Ben 10, Batman, Homem Aranha, Aliens, Buzz, uma infinidade de fantasias, nesse mundo do faz de conta sou inserida sempre que estamos juntos. Virei, MUMÚ – nome que inventou para me chamar e assim sou obrigada agora a fazer teatro infantil, dentro do seu quarto, na rua, no shopping, aonde estivermos. Nosso palco é imenso.
A gargalhada da bruxa já se tornou marca registrada, o que as vezes assusta as pessoas, pasmas com tanta maluquice. Mas devo confessar que somos muito felizes. Saio sempre renovada desses encontros; ou quebrada, pois incluem também luta corporal, rolamos no chão e ele quase sempre me vence. A Mumú é “lelé da cuca”, ele diz, portanto uma avó que foge aos padrões. Prevalece a atriz, lhe fascina mais.
Ganhei também um sobrenome alemão com meu atual casamento: Bierrenbach. Publicitário talentoso, intenso criador. E o encontro com a atriz, vez em quando gera algumas discussões. Normal. Pessoas intensas debatem. E muitas coisas viram “Quiproquós ou… Turumbambas”.
 

Pois… Aprendiz de escritora, hobby cultivado há anos, tenho um blog de crônicas com esse titulo. Ali, escrevendo faço minhas catarses, projeto meus sonhos e me salvo. Mantendo-me ativa, em movimentos constantes; tenho necessidade absoluta de ocupar espaços e a cabeça.

 

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