A LIBERDADE DAS PALAVRAS

 

o.31526

 

Me  deixa só… Com minhas fantasias, meus sonhos, meus delírios… me deixa só… Finalmente dando nova forma a meu corpo para que ele acompanhe o tamanho dos meus pensamentos, aqueles que sempre estiveram a salvo de qualquer invasão e que jamais ninguém poderá trancafiar, nem censurar, nem apagar.

Me deixa só para que eu dê passagem a minha inquietação que foi adormecida, que foi adiada e me fazia tanta falta. Para recuperar o olhar, o brilho do sorriso e o tesão na pele.

Me deixa só porque eu preciso libertar as palavras, todas as palavras que me foram cassadas.

Os palavrões, as reticências, exclamações, as letras maiúsculas, as obscenas. Quero abusar!

Finalmente estarão libertas, soltas, preciso ordená-las, ainda não se entendem… Por serem muitas, as cortadas ou cortantes perdidas ainda estranham o motivo porque foram vencidas pelo silêncio. Estão em revolução.

Tenho que ter cuidado, algumas se tornaram perigosas ou mesquinhas. Pratico o exercício da sutileza precisam encontrar o tom.

Me deixa só, porque meus delírios precisam se acomodar me alimentam, me impulsionam e sobrevivo;habitam  tantas dentro de mim que preciso me organizar, para não mais  as perder.

Nas palavras vou tecendo meus sonhos e vou carregando-os na bolsa, no bolso, na rua, no metrô, na praia, no botequim, na sala, e no elevador.  No travesseiro me dominam e na cama me fascinam.1914069_721300811339792_587561158429800379_n

Mas por favor, mantenha distância… Alcançá-las é tarefa para poucos, só os que possuem no sangue essa mesma cor, esse ritmo, esse furor.

Então agora me ouve… Para de falar… Minha cabeça está povoada não de fantasmas, mas de personagens, procurando sua luz, sua deixa, sua história.

É agora posso revelar: sou atriz! Abri meu baú. Dele tiro panos bordados, tecidos transparentes, fico nua e troco de pele.

Nesse desassossego, vou remendando, construindo aquela que de tanto sentir, foi  ficando sem voz,  mas continuava  mesmo sabendo que não era ouvida.   Foi quando de repente gritou: Foda-se! Fo-da-se!

E foi a palavra que a salvou. Um grito que espantou o medo.  Escapou e somente esse pensamento a libertou, ainda atônita tomou-se de euforia.

Hoje fica olhando para aquela fresta por onde passou e custa a acreditar.

Nela escreve… Palavras, muitas palavras sem censura e acolhida, vive delas.

Sim, essa sou eu povoando meus dias, com histórias que estavam guardadas e com as que ainda estão por acontecer. Todas comigo, sempre estiveram.

Portanto, me deixa só, tenho um encontro marcado… Preciso cuidar do cabelo, da pele, comprar um batom, mudar o esmalte, uma saia rodada, uma blusa colorida, tomar um porre, ouvir uma música, acabar aquele livro, ver um filme, dançar, abraçar um amigo, celebrar com as amigas, acudir quem for preciso, ouvir todos os sons: do mar batendo, das gargalhadas, dos passarinhos cantando, e de uma voz… tenho carência de voz.

Por favor, então entende: me dá sua boca, segura minha mão, não pergunta. Estou em constante movimento, não existe controle, são muitas as circunstâncias, as ideias me  atropelam,  não  existem verdades, somente buscas,me defendo, mas avanço ,  as mudanças doem,mas a gente  veste uma  armadura, cresce,  e a vontade de ser inteira vence. Agora você já sabe, tenho muitas vidas me esperando, não, não pergunta, embarca, estou atrasada.

43004827-Beautiful-young-woman-running-to-catch-a-train-on-the-platform--Stock-Photo

Vera Vianna

Quando trabalhava no Jornal do Brasil ao entrevistar Nelson Rodrigues foi convidada para protagonizar o filme ENGRAÇADINHA, de seu livro ASFALTO SELVAGEM, assim, ingressando na carreira artística. Hoje atriz , jornalista, blogueira e escritora.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *