A CASA

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Uma casa sempre será o melhor porto seguro, o melhor refúgio, um bunker esteja ela onde estiver geograficamente. Não precisa de um Van Gogh na parede, nem estofados de seda.

Na minha casa sempre predominou a cor, espalhada entre os móveis, as estantes, repletas de discos e livros, as flores em cada canto, a cozinha animada pelo bater de panelas cheias, de comida feita com carinho, da sedução dos temperos, da alegria de receber. Mesa arrumada com requintes de beleza, em cada detalhe. Louça fina, a mais bonita sempre, porque louça não é para ficar no armário, por mais cara que seja, é para ser usada, é para dar prazer e melhorar o sabor.

Na minha casa a alegria imperava, o barulho de gargalhadas, risos e muita conversa. Diversas, papos cabeça, ou apenas tolices ditas a esmo. Na minha casa o romance fazia morada. Os meus, os seus, os nossos. As meninas cresciam e se espalhavam pelos sofás, tapetes, camas, entre risos e às vezes lagrimas, elas ali se sentiam seguras, acolhidas, sem medo de confidencias, sem medo de censura, compartilhavam comigo, seus momentos de euforia ou de angústia. Minha filha e suas amigas que viravam filhas imediatamente. A mammy era a irmã mais velha, que elas admiravam, por ter a loucura que fazia parte do ser diferente que ali habitava.

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Na minha casa, a música estava sempre presente e nas pausas, íamos do drama a comédia.  Meu olhar sobre o que lhes acontecia tinha a liberdade que me acompanha, sem que elas perdessem a noção dos limites.

Foram muitas as minhas casas… Os endereços às vezes mudavam, entre Rio, São Paulo e além-mar, as caixas eram embaladas e viajavam, mas a Vida que continha voava junto, tudo se repetia em outros lugares.

Minhas casas guardaram romances e paixões dilacerantes, foram cofres seguros da alegria.

Felicidade era a bagagem imprescindível, viver cada momento como se fosse o último fazia parte daquela loucura coletiva. A porta permanecia sempre aberta para os amigos e formávamos bandos, de pessoas ávidas por aconchego.  Sempre amei minhas casas, sempre amei tê-las repletas de pessoas, sempre gostei de albergar os carentes e dividir minha sede de viver intensamente.

Mas o tempo passa, sem que nem a gente sinta, imperiosas mudanças, aventuras e a necessidade de buscas me levaram para lugares diversos, sem medo de ir.

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Sinto hoje em dia saudade de casas antigas, em cada uma delas deixei um pedaço de minha história. Bem vividas, por inteiro. Lembro-me das mangueiras da Torre no Recife, na infância agitada, e o gosto das pitombas .Sentindo a carência de uma mãe que me deixou muito pequena. Do apartamento perto da Lagoa, do Sitio ermo e longe, onde plantei e flori, acolhi e aprendi a amar muitos cachorros, da casa de Cascais, uma das mais lindas, do apartamento de Milão onde fui feliz e infeliz, envolta na nebia da cidade fantástica, onde minha juventude era plena, deslumbrada com tanta informação.  Do apartamento da Alameda Franca em São Paulo, no 16º andar, com direito a lareira.  Onde a noite tomava vinho, fogo crepitando e rolando no tapete com um amor cúmplice. Como esquecer um charme desses?

Fora de ordem, essa descrição. São tempos misturados, com a memória em câmera lenta.

 

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Hoje, minha casa se reduziu, em espaço e quietude. Faz parte da mutação e do crescimento. Faz parte de encontros com menos buscas. A idade nos vai revelando que procurar sentidos, é da maior inutilidade. Começa a contagem regressiva, portanto manda o bom senso, que nada se desperdice.

Aprende-se o famoso desapego. Conservo meus quadros queridos, meus livros especiais, minhas musicas que são trilhas sonoras de todos os amores e todos os sentimentos revisitados, de vez em quando. Sem nostalgia, sem melancolia, apenas saudades. No vazio, encontro em cada canto os sonhos. Em cada céu azul de um dia que nasce a esperança e o agradecimento de estar ainda tão repleta de vontade, força e fé no que me cerca.

Hoje moro sozinha e desfruto também essa paz de estar comigo, me entendendo, me procurando, sem nenhuma interferência. A cozinha silenciou, as meninas casaram, e os amores andam por aí, cada um com seu novo caminho. Os amigos perto ou distantes, vejo de vez em quando, mas permanecem muito presente, disso não abro mão.

Os amores novos que vão surgindo, acolho agora com mais cuidado. Não é qualquer um que me alcança, tem que ter o brilho no olhar que não seja enganador, não me jogo mais no destempero, esse tempo tão consciente passou. Existe um momento em que a gente se deixa enganar, por puro prazer, até cansar e encarar que esse jogo perdeu a graça. Continuo seduzida pelos loucos e sonhadores, pelos desequilibrados como eu, pelos que jorram emoção e se arrepiam com uma cena de um filme qualquer ou uma frase de um poeta, um canto solto na voz que Deus lhes deu e invadem nosso ar, por uma coragem que invejo, por uma obstinação latente, por aqueles que não se rendem ou se entregam. E principalmente pelos que me fazem ser melhor, mais plena, me gratificam com sua luz que doam sem reservas. E têm prazer de receber o que vivi e não posso guardar. Que chegam sem cartas na manga e se houver que seja pelo menos um Ás. Que retire devagar, no momento certo, sem melodramas, ganhando o jogo com a ternura que o Amor merece.

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Fquei seletiva, fiquei exigente, quero cabeças que me deslumbrem, e corações abertos. Fiquei madura, fiquei cansada. Na maioria das vezes concordo, por puro tédio.

Aprendi um olhar indulgente, e uma compreensão que só me abandona quando encarno uma entidade muito longe de madre Tereza. Resquícios do sangue pernambucano, ou da necessidade de gritar: toma cuidado, não sou idiota, cresci.  Não piso em ovos, não tenho esse talento, sou uma estabanada nata, portanto tenho os dias de fúria que jamais me abandonarão. Mas é preciso muita provocação ou presunção de quem acha que está me ganhando duvidando da minha  inteligência. Daí aumento o salto e dou uma “Situada,” palavra que roubei de minha amiga Lilian Caruso, psicanalista e amiga de confidencias nas altas horas da madrugada. Com ela rasgo o verbo sem pudor. Ela sempre consegue me fazer enxergar pontos obscuros, que no calor da emoção, deixei passar. Precisamos de alguém que nos faça não ultrapassar os limites, é com muito humor, cuidado e sensibilidade que ela me alerta, quando estou prestes a extravasar e perder meus estribos. Dependendo do meu estado de confusão vai me dando em gotas, até que eu absorva , desligue ou levante de seu sofá Freudiano com pé em Jung e me jogue na reflexão. Fator da maior importância. A análise foi um marco divisor em minha vida, e aproveito aqui para declarar: Obrigada Lilian Caruso!  Por ser nesse momento  a amiga e terapeuta que preciso. Quando estou em um momento desses, luzes vermelhas se acendem fico louca para entornar um copo ou um balde, mas fico à espera que a emoção me dê uma chance para conseguir a frieza necessária e não deixar a pernambucana encarnar. Todo dia acordo e canto para ela subir. Rezo para conseguir um final feliz.
tumblr_lhwtk2UguW1qb1f3so1_500-thumb-500x347-112258Mas doida como sou, isso me instiga, me faz ficar mais ocupada, apostando comigo mesma, quanto tempo vou segurar. Seja qual for o resultado, já me prometi muitas coisas. Inclusive me rasgar no meio dessa sala, tendo os quadros, os livros, os poetas, as flores, talvez até os vizinhos por testemunha.

Pois é… Nessa agora casa pequena tem muito silêncio, mas o barulho que me invade está sempre me lembrando que minha festa continua. E não será por falta de espaço que ela vai se aquietar.  Ganho a rua, me misturo à multidão, converso com desconhecidos nos bancos da sorveteria, nas cadeiras da praia, nos cafés ou livrarias. Ao redor ouço a música de hoje ou de ontem, sinto o sabor das comidas que inventava, sinto no peito todas as pontadas dos amores vividos, na boca o gosto dos beijos desejados e ganhos, e no rosto de cada desconhecido os sorrisos inesquecíveis que me deixaram tonta de prazer.

Não, não é solidão, é um inventário de quem nunca desperdiçou essa coisa mágica que é viver.

Independe de espaço, em cada casa a gente cria um Mundo, basta atracar o barco jogar a ancora, ficar olhando ao redor e ir contando as marés.

Cancelar os enganos e esperar o arco-íris.

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Vera Vianna

Quando trabalhava no Jornal do Brasil ao entrevistar Nelson Rodrigues foi convidada para protagonizar o filme ENGRAÇADINHA, de seu livro ASFALTO SELVAGEM, assim, ingressando na carreira artística. Hoje atriz , jornalista, blogueira e escritora.

  • Sonia Clara Ghivelder

    Vera, Que prazer imenso ler a narrativa poética do seguimento da sua vida. Eh sincero tudo o que reflete. Eh intenso como você eh. Eh real no plano de uma realidade não inventada, mas vivida. Bjos Sonia Clara

  • Nauplia Borges

    Amei ! Amei! Amei!!! Independe do espaço, em cada casa agente cria um Mundo, basta atracar o Barco e jogar a âncora, ficar olhando e ficar contando as marés!!! Cancelar os enganos Sempre...

  • Nelson Sganzerla

    Melhor do que ter um AS na manga é ter um Coringa escondido pronto para colocar à mesa. Muito bom Parabéns por essas loucuras sensíveis. Beijo Nelson Sganzerla

  • Vera Vianna

    Obrigada Sonia Clara Ghivelder pelo carinho da leitura, e pelo delicioso comentário!

  • Vera Vianna

    Nau Nau que coisa gostosa saber vc. ai em Paris, lendo sua amiga, e melhor, me fazendo saber o quanto gostou! bjsss e Saudades Nauplia Borges Obrigadaaa!

  • Vera Vianna

    Nelson Sganzerla, obrigada! Lindo e delicioso vc. tirar esse coringa escondido...rsrsrs bjss obrigada pela leitura e carinho sempre.

  • Helena vitória

    Vera, que narrativa linda. Q história embrulhada na sensibilidade humana. Amei! Vou replicar uma de suas falas: "Hoje, minha casa se reduziu, em espaço e quietude". Isso é tudo o que precisamos em uma casa, quietude. Beijo e fico na espera de mais textos deliciosos.

  • Madja Mesquita Brandão

    Obrigada Helena Vitória. Que prazer ter vc. aqui lendo essas minhas crônicas de sentimentos. Que prazer ser lida por pessoas que não só leem, sentem! bjsssObrigada!

  • Gina Soares

    Uauu... simplesmente adorei. Uma narrativa que me fez viver um pouco de sua vida, tão clara ela foi... Parabéns.

  • Mirella Moura

    Gostei imensamente de tua narrativa, cheia de calor e lembranças que nos lavam a alma. La nebbia di Milano che ti fece felice e infelice, ti ha lasciato un sapore di nostalgia che non sparira mai. Verdade Vera, hoje a minha casa também estreitou. Bjs. Parabéns!!!!!

  • madjamesquitabrandão

    Obrigada Gina Soares! Que coisa motivadora, ser lida e e comentada com tanto carinho! bjsssss

  • Vera Vianna

    Mirella Moura obrigadaaa! La nebbia di Milano che ti fece felice e infelice, ti ha lasciato un sapore di nostalgia che non sparira ma. Grazie tanti! É vero cosi! tanti bacini.

  • Vera Vianna

    Por um erro que deu aqui... está saindo minhas respostas para Gina Soares e Helena Vitória... Abaixo do comentário da Madja Mesquita Brandão, que não saiu ... desculpem. Tilts acontecem.

  • Madja mesquita Brandao

    simples assim.....complicado assim.....foram suas escolhas. Cada mudança uma história. Alegrias, decepcoes, sonhos, desenganos, parcerias, novos amigos, amores, desafios.... E assim você segue tocando sua vida sempre rica em experiências e nas paredes acolhedoras e coloridas das suas casas ou apartamentos ou no mundo lhe chamando lá fora. Nunca se acomoda o que a torna especial e humana. Uma camaleoa , guerreira, adorável, pois a capacidade de se reinventar em qualquer fase da vida e dentro de você, sua alma. Tanto faz um pequeno ap ou um palácio. Vera, verdade. Beijos..

  • Vera Vianna

    Madja que leitura sensacional!Sem palavars diante de um olhar tão profundo, e terno, onde nada passou, Foi direto ao encontro desse coração que jorrou nessa narrativa, as mudanças e as saudades...Obrigada, por ler nas sutilezas, mergulhando junto comigo , e me deixando sempre emocionada! Mil bjssss e todo o meu carinho, por estar acompanhando mais essa minha jornada.

  • Lais Pinto da Cunha

    OI AMIGA, Cada vez que leio ou releio suas crônicas, vejo que não poderia nunca prescindir de uma amiga- irmã, como você. Já pensou que luxo ter como garantida, uma crônica da saudade, quando não puder mais vibrar com esse incontido e original derramamento de emoção que você demonstra ter vivido, em cada nova crônica que deleita seus leitores.....? Esse mundo nunca será justo, enquanto uma Editora não fizer questão de editar o seu trabalho.....! Bj.

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