SARAVÁ 2018

 

 

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Eram grandes as previsões e achamos exageradas as ameaças, a gente sempre quer afastar o medo e dar passagem para a Esperança. Assim fiz eu e acredito que muita gente também. Já estava tão ruim tudo, tão surreal que parecia que não iriam conseguir estragar mais a nossa festa.Conseguiram.

O Natal virou pesadelo, os encontros de amigos, de amigo oculto, coisas que sempre nos traziam alegria ficaram inviáveis.

Não temos mais sentimentos no estoque para extravasar a revolta, o ódio, a depressão e a incredulidade.  2017 foi um jogo de dominó. Sobreviver foi o grande desafio. Muitos conseguiram, sabe-se lá Deus como, outros sucumbiram, adoeceram, perderam a motivação.

Os Teimosos resistiram, não com tanta galhardia, mas não achando saída, fizeram da raiva combustível para caminhar e se salvar.  Da insanidade.

Fazendo das tripas coração, chego até Dezembro, não ainda sem temor.
Os amigos de verdade, se deram as mãos e fizeram valer uma ciranda de solidariedade. Cada qual a seu modo. Porque sinceramente, não vejo outra opção.  Voltarem-se uns contra os outros é o caminho torto que não vai levar a lugar nenhum. Pelo contrário, ficaremos cada dia mais sozinhos.Amizade

O meu ano, foi de algumas perdas e outros ganhos.  Tive dias de insônia, dias de euforia, dias de achar que tudo estava perdido, dias de ter certeza das vitórias.  Dias brasileiros . O refúgio foi  sempre otimismo. Cercada de bons amigos, de carinhos, de sementes que plantei, mesmo achando que poderiam ser erva daninhas. Sem abrir mão de ser quem sou, mesmo que muitas vezes, não fosse o politicamente correto. Jamais fui, iria começar agora? Sem chance. Digo o que penso e respeito os adversários. Sem respeito, não existe dialogo. E monólogos não combinam com uma mulher histriônica como eu.  Ouço, e muito. Calo, e nesse calar, aprendo, tenho espaço para verificar se o outro tem razão. Donos da verdade são maçantes. Ou simplesmente concordo comigo mesma. E sigo meu caminho.

Os dias foram de sucessivas surpresas: algumas boas e outras tipo trevas. De agosto em diante os ventos sopraram contra, era necessário ajustar as velas em outra direção.

Posso definir esse ano como uma caixa de pandora. O ano das prisões, delaçoes, tornozeleiras eletronicas, da Operação Lava-Jato, tendo  à frente o Juiz Sergio Moro, um Hercules moderno com  mais de 12 trabalhos.

Assédios denunciados, repúdio  aos preconceitos, homofobia, estupro e crimes antes enterrados, ganharam holofotes,com as mulheres  colocando a boca no trombone,  e alguns exageros. Porem melhor pecar pelo excesso.

Omissão é a covardia que não quer levantar do sofá.

De minha parte usei minhas defesas, atreladas a conhecida loucura.  Tirei férias de mim,  que tenho a mania  de ter opinião sobre tudo. Acordo, se tem sol e azul, já acho um ganho, se chove, Polyana acha ótimo, terei mais tempo para escrever, ler todos os livros que estão na fila, ver os muitos filmes que  me  transportam ,ir espiar o trabalho dos amigos, vibrar com cada um que está ali,  na trincheira da resistência, politicamente ou culturalmente.  São as nossas armas, pertenço a essa tribo. Vocês já sabem, mas gosto de me repetir: somos os sonhadores, os loucos, os criadores de fantasias, os doidos de pedra.  Aprendi que as palavras escritas me libertam, é uma salvação.   Com isso descubro também que não estou sozinha, cada um que atinjo e me motiva eu corro para o abraço. Também já disse isso. Tenham paciência, ando repetitiva.18342463_1206052282840990_8773267390099327518_n

Do novo lugar fiz um bunker, com inveja dos escritores americanos que vejo em muitos filmes, onde  possuem um refúgio próprio só para escrever. Lugares lindos à beira mar, ou nas montanhas, à beira de lagos cinematográficos. . Comecei até a falar inglês, para entrar no clima. Com quem? Comigo mesma, em frente ao espelho. Me achando. Deixei o surto ser protagonista.Mas não se preocupem, já voltei ao normal. Aqui  tenho todo o verde da natureza que me inspira.

Bipolaridade com certeza, não diagnosticada, mas percebida. Domada, trabalhando a percepção do limite.

Portanto falar de um ano kármico para todos nós, torna-se uma tarefa quase impossível.

Ódios exacerbados, amores renegados, demonizações, pinceladas de justiça, onde a injustiça vence, num mar de equívocos. Um hospício sem chave.

O ano das maluquices mais  bizarras.Temos que nos habituar, porque a enxurrada de acontecimentos foi grande, e tende a ficar assim. Adaptação. Palavra de ordem. Valores subvertidos. Só nos resta lamentar.

Pessoalmente confesso que vivi, meu fantasma é o tempo. Trabalhei no meu sonho, que todos sabem  é terminar meu Livro, e o pão que o Diabo amassou eu já comi, engoli, e digeri, ou apenas vomitei. Aconselho até esse vomito. Limpa mais rápido e a gente já inventa outro drama ou outra alegria dia seguinte.  Seja uma praia, conseguir pagar uma conta atrasada, um romance, uma paixão súbita que é uma excelente droga, acelera, enche a cabeça de caraminholas, depois não é nada daquilo, mas enquanto foi valeu, aumenta a libido, responsável pela criatividade e assim vai.  Na hora de cair do cavalo, espertamente se escolhe uma grama macia e com o rosto coberto de lágrimas e nostalgia nos tornamos poetas. É a fase  mais rica.

A dor . Um porre,  namoros fora de hora, colocando a palavra assédio tão em moda, no lugar certo, claro. Por que gente aqui pra nós, como vamos viver sem ser assediada?  A antiga cantada  dentro do bom gosto?  Apagar o desejo? E faz o que com o tesão?  Tesão por tudo, principalmente pela vida. Depois da queda, lambemos as feridas. Mas romance não pode faltar.

Enfim, esse 2017 zerou a alma e a paciência. No entanto, o importante sempre é o resultado. Estamos Vivos!  E livres para fazer de cada momento ruim um aprendizado. Rever conceitos faz parte.

A Síndrome do abandono que me acometeu me enchendo de medos ,exorcizei no dia do meu aniversário, que foi um dos melhores que tive ultimamente, sem muita expectativa fui cercada de amigos lindos, tomei um leve e merecido porre, comemorei a entrada do novo ciclo e a saída do inferno astral. Acordei nova.bolo niver

Dei uma cacetada no medo e nem de Alice e seu País tenho mais inveja.

O sonho do livro ganhou cor, força, amor e fé.  Colhi os retalhos de Cora Coralina, armei um varal e estão todos lá, se refazendo no sol da Esperança.

Aprendi muito, tirei forças do útero que já não tenho , enchi o saco de todos os santos que comigo convivem, mística que sou, e essa Fé foi da maior importância.  STARWAR – me disse um antigo amor- que de longe me presenteia com a espada da certeza, aquela que decepa todas as minhas dúvidas.

O bota fora de 2017 já está pronto. Um mergulho no mar, essencial, um champanhe gelado, e no coração uma imensa Gratidão.  Extensiva a todos vocês, amigos, irmãos, amores que fazem, a muralha que me blinda amenizando as dores, alavancando a coragem, às vezes enfraquecida. Uma rede, onde pulo, quico e volto, batendo as asas.

Então vamos lá: Rumo a 2018!

 

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ESTRANHEZAS

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Desde sempre ela esperava o mês de agosto com curiosidade e certo receio. Temia.

Sua vida sofria mudanças nessa época. Superstição?  Sim, além de ser intuitiva. Às vezes uma boa virada, ou um choque que lhe desestabilizava. Sua intuição era certeira. Um inferno astral antecipado. Não fora diferente nesse 2017-com duas vezes o número cabalístico que era sua marca no calendário. O sete era sua roleta. Às vezes russa… Outras de pura magia. No dia sete de agosto recebera um presente, já anunciado meses antes, viria com dia e hora marcados. Uma festa, uma homenagem carinhosa, um reconhecimento não esperado. Um troféu. E com ele uma inacreditável “coincidência”. A chegada de uma pessoa que já havia lhe ocupado a vida com suaves correntes e fantasias. Fazia parte desse momento, um renascimento no qual se encaixou, e nele acreditou. Fez até com que ela acreditasse em sua estória abandonada. Sonhavam juntos, á distância com projetos lindos de vida e trabalho. Entendiam-se, era uma bela conexão.  Estória quase de cinema, um elo que preenchia seus dias e um parceiro para  sonhos. Era um sonhador, e desse fascínio ela não conseguia escapar.21740198_1669422893089407_151795626743403897_n

De repente, a presença dele na data marcada tornou-se uma realidade, o que fez do troféu um Oscar. Sua única e inesquecível lembrança desse mês que a enganara.

Depois disso, os dias foram se atrapalhando sucessivamente. Agosto fazia jus ao seu slogan: o mês do desgosto. E a mudança não desejada invadiu. O encontro virou desencontro, e a mudança chegou ao pé da letra; precisava abandonar a casa que morava e ir para outro lugar, literalmente. Impacto e muita trabalheira.  Teve que deixar de lado os projetos que já estavam avançando e motivando, parar tudo, para embalar. Vida real. Caixas e mais caixas, pertences guardados, com um prazo curto para desmontar uma casa e montar outra.  Já não estava mais habituada a essa ciganice. E por aqui passava um lado emocional, de um passado recente.

Ficou pregada diante da TV durante três dias… via seu filmes, uma  droga que a tirava da realidade. Tentando administrar e teimando em entender. Precisava chegar assim tudo de uma vez? Um rompimento, uma decepção e ainda precisava encaixotar? Procurava compreender aqueles desmanches inesperados.

Passado o choque levantou, abandonou a TV e sem conseguir nenhum raciocínio lógico dedicou-se ao trabalho braçal, que é uma ótima terapia.arrumar-mala-viagem

O corpo reclamava, alergias à poeira e mofo danificavam seus olhos, a coluna travou. Injeções, remédios, e feito um robô, tinha em algumas tardes a amiga irmã, que chegava para ajudar a embrulhar, tomavam café, recordavam e choravam juntas. A mais perfeita tradução de carinho. Moravam no mesmo prédio e agora ficariam longe.

O desequilíbrio brigava com a cabeça, que precisava preservar inteira a fim de comandar essa guerra. –Vou conseguir!- gritava em voz alta, Vamos Encarar, era o comando que ouvia, porque não existia outra saída. Contava dias e horas, separando os assuntos.  Ao deitar, tudo se misturava de novo, o filme que estava pronto em sua memória criativa em excesso, o livro que escrevia e teve que interromper, os livros que começara a ler também se amontoavam pelos cantos, embaralhava sua mente exausta, e adormecia com o seu principal aliado… O lexotan. Numa dessas noites, levantou de madrugada, porque finalmente dentro desse caos encontrara o último capitulo do livro.  Que andou buscando desesperadamente .  Sentou e varou a noite escrevendo. O livro não estava pronto, mas o ponto final apareceu assim ,  num surto .   Não é para entender.

Se assim não fosse, nada seria. Mulher Maravilha ficaria com inveja. Só que lhe faltava os poderes dela.

Por quê? Era a única pergunta que lhe martelava. O que será que vem pela frente? Terei ainda tanta frente?

Perguntas sem resposta. Não tinha bola de cristal… Precisava caminhar nesse desvio e esperar lá na frente. Seria um resgate? Precisava concluir… arrematar?Christmas-hot-selling-new-arrival-promotional-3-3-Asia-clear-quartz-font-b-crystal-b-font

Três amigas serviram de rede, e a cada momento mais tenso se deixava cair em uma delas. Sentia ali o amparo confortador.

O homem, aquele amigo que viera para tentar seus novos caminhos, voltou oferecendo ajuda e fez o que mais sabia: Joga-la para cima. Era bom nisso. E entendeu aí sua aparição.

Enquanto ele falava sentado à sua frente, enxergava um vaso quebrado, mentalizando um tubo de cola. Precisava colar, mesmo rachado gostava daquele vaso.  Naquela rachadura, que era clara, vislumbrava sua confusão e a decepção primeira. Não se perdoava pelo equivoco.   Tinha talento para isso…  Era exatamente o que a incomodava. Ouvia entre caixas e malas a voz daquele menino grande perdido, tão confuso, tão intenso, tão amoroso, tão amigo, tão cheio de barulhos contidos.  Como tinha barulhos aquele moço. Será que conseguia se ouvir? Como não percebera isso? Porque criatura, você estava dividindo seus sonhos com ele e isso turva qualquer visão.  No entanto sonhos  têm  prazos de validade. Simples, disso sabia, enquanto ia se esvaziando entre as caixas repletas.

A proximidade com as pessoas nos traz inacreditáveis surpresas. São estranhos que você acredita conhecer… E a realidade é um desperdício.
Perdas… Esse agosto veio cheio de perdas. Ou livramentos?  Só o tempo poderá escolher. Agosto finalmente entrou em Setembro e a fila de abandonos sucedia-se.993293_549796201749663_334066249_n

Estávamos vivendo tempos difíceis, no limite, as pessoas assustadas, o amor sendo sufocado, porque não conseguiam entender que era esse o único escudo.  Tinham vergonha de confessar seus medos. Era mais fácil a indiferença, o faz de conta, o isolamento.

Entrou na nova morada e aproveitou então a mudança para revisitar seu estoque de lembranças, onde amarradas com fitas dormiam em uma caixa suas fotos e cartas. Os bilhetes amorosos, o amor arquivado. Releu algumas, enxergou com novo olhar, ria ou se emocionava. Essa catarse lhe tomou tempo. Mas precisava dessa viagem. Paixões já resolvidas afirmavam através de palavras e imagens que amou e foi amada, generosamente.

As muitas faces de uma mulher múltipla, multimídia, multinacional, te fazem única, exclusiva, especial em todos os cômodos da casa e da vida. bjssss- Zão- 20141385880_630411736981665_292989219_n

Bonito esse homem concordam? Lamentava terem se separado. Esse foi aquele que ela levou dois anos para conseguir deixar de verdade…  Esse bilhete foi por ocasião de um aniversário dela. Escrevia coisas lindas todo ano, há muitos anos…  Ela adorava o texto desse homem. Ela adorava esse publicitário. Escreve demais, talvez o último romântico. Esse amor permanecia e sabiam, só havia tomado outra forma, como deve ser.

Espera um pouco, não me deixa aqui ainda… Ela não aguentaria mais esse abandono, preciso concluir essa sua estória. A máquina de furar está em ação, fazendo um barulho ensurdecedor e não consigo ouvir vocês. Os quadros estão sendo pendurados. Sem eles a casa fica nua, eles precisam das paredes para expor sua vida, suas cores, quadros empacotados murcham. É igual a um encontro sem beijo na boca, ouvi-a dizendo para o rapaz que empunhava a ferramenta.

No novo endereço, rodeada de verde a natureza tem lugar destacado, ouve até o canto dos passarinhos.  Ouve o latido dos cachorros e gosta de vê-los passeando, no final de tardes. Mistura-se com eles, para afagos, faz amizades. Lembra-se de Joaquim seu último grande amigo.199327_172702772866268_46762881_n

A máquina parou… Agora posso ouvir vocês e escrever o resto da estória.

Que bom que não me abandonaram, essa moça de quem falo iria ficar mais cismada do que já anda.

 Sofria ainda pelas estranhezas, por não ter conseguido entender nada, nem os estranhos, que se apresentaram, nem esse vulcão que entrou em erupção.  Nessa reta final, parecia tudo supostamente orquestrado para lhe abrir feridas.

E abriu, mas como sempre fazia, esperava que cicatrizassem. Estava na hora de se perdoar, por gostar tanto de pessoas assim… Esquisitas, fora dos padrões, com repetições de comportamento, mal resolvidas, infinitas, fazendo do afeto alvo, apaixonadas pelo precipício e não pela estrada.

Talvez, Jung, Freud ou uma Mãe de Santo, quem sabe uma Cartomante, pudessem melhor esclarecer a participação dela nessa escolha, também repetitiva, mas já era tarde. Melhor jogar ao vento. Estranhos seriam eles, ou essa mulher teimosa que insiste em acreditar nos seus sonhos, continua se entregando sem reservas, não recuava, aumentava o volume de sua ousadia, fazendo do seu medo munição, e assim os assustava mais? Com isso colhia mágoas sentindo-se ela de repente o ser estranho, a ave fora do ninho.

Os quadros ficaram lindos, amava suas telas, estava quase tudo no seu lugar, precisava de algumas flores soltas aqui e acolá, mas já se entendia, se encontrava. Já chamava o lugar de seu.   Até sentou para escrever. Andava embotada, sem inspiração. Destravou.

Os objetos iam encontrando seus cantos e os estranhos voltavam para seus ninhos.

Fariam outros voos, em busca sempre de seus desencontros. Ela iria permanecer fiel a sua busca pelo encontro, atenta aos seus sentimentos que lhe aqueciam, e aos amores que estivessem por perto, na mesma sintonia. Sabia preencher os vazios.

Do alto de seu Shangri-Lá  apenas lamentava .11781657_655659831237224_7650521866896129462_n

Estava saindo do olho de um furacão. Desarmou-se, nem tudo valia a luta.

 

A CASA

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Uma casa sempre será o melhor porto seguro, o melhor refúgio, um bunker esteja ela onde estiver geograficamente. Não precisa de um Van Gogh na parede, nem estofados de seda.

Na minha casa sempre predominou a cor, espalhada entre os móveis, as estantes, repletas de discos e livros, as flores em cada canto, a cozinha animada pelo bater de panelas cheias, de comida feita com carinho, da sedução dos temperos, da alegria de receber. Mesa arrumada com requintes de beleza, em cada detalhe. Louça fina, a mais bonita sempre, porque louça não é para ficar no armário, por mais cara que seja, é para ser usada, é para dar prazer e melhorar o sabor.

Na minha casa a alegria imperava, o barulho de gargalhadas, risos e muita conversa. Diversas, papos cabeça, ou apenas tolices ditas a esmo. Na minha casa o romance fazia morada. Os meus, os seus, os nossos. As meninas cresciam e se espalhavam pelos sofás, tapetes, camas, entre risos e às vezes lagrimas, elas ali se sentiam seguras, acolhidas, sem medo de confidencias, sem medo de censura, compartilhavam comigo, seus momentos de euforia ou de angústia. Minha filha e suas amigas que viravam filhas imediatamente. A mammy era a irmã mais velha, que elas admiravam, por ter a loucura que fazia parte do ser diferente que ali habitava.

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Na minha casa, a música estava sempre presente e nas pausas, íamos do drama a comédia.  Meu olhar sobre o que lhes acontecia tinha a liberdade que me acompanha, sem que elas perdessem a noção dos limites.

Foram muitas as minhas casas… Os endereços às vezes mudavam, entre Rio, São Paulo e além-mar, as caixas eram embaladas e viajavam, mas a Vida que continha voava junto, tudo se repetia em outros lugares.

Minhas casas guardaram romances e paixões dilacerantes, foram cofres seguros da alegria.

Felicidade era a bagagem imprescindível, viver cada momento como se fosse o último fazia parte daquela loucura coletiva. A porta permanecia sempre aberta para os amigos e formávamos bandos, de pessoas ávidas por aconchego.  Sempre amei minhas casas, sempre amei tê-las repletas de pessoas, sempre gostei de albergar os carentes e dividir minha sede de viver intensamente.

Mas o tempo passa, sem que nem a gente sinta, imperiosas mudanças, aventuras e a necessidade de buscas me levaram para lugares diversos, sem medo de ir.

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Sinto hoje em dia saudade de casas antigas, em cada uma delas deixei um pedaço de minha história. Bem vividas, por inteiro. Lembro-me das mangueiras da Torre no Recife, na infância agitada, e o gosto das pitombas .Sentindo a carência de uma mãe que me deixou muito pequena. Do apartamento perto da Lagoa, do Sitio ermo e longe, onde plantei e flori, acolhi e aprendi a amar muitos cachorros, da casa de Cascais, uma das mais lindas, do apartamento de Milão onde fui feliz e infeliz, envolta na nebia da cidade fantástica, onde minha juventude era plena, deslumbrada com tanta informação.  Do apartamento da Alameda Franca em São Paulo, no 16º andar, com direito a lareira.  Onde a noite tomava vinho, fogo crepitando e rolando no tapete com um amor cúmplice. Como esquecer um charme desses?

Fora de ordem, essa descrição. São tempos misturados, com a memória em câmera lenta.

 

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Hoje, minha casa se reduziu, em espaço e quietude. Faz parte da mutação e do crescimento. Faz parte de encontros com menos buscas. A idade nos vai revelando que procurar sentidos, é da maior inutilidade. Começa a contagem regressiva, portanto manda o bom senso, que nada se desperdice.

Aprende-se o famoso desapego. Conservo meus quadros queridos, meus livros especiais, minhas musicas que são trilhas sonoras de todos os amores e todos os sentimentos revisitados, de vez em quando. Sem nostalgia, sem melancolia, apenas saudades. No vazio, encontro em cada canto os sonhos. Em cada céu azul de um dia que nasce a esperança e o agradecimento de estar ainda tão repleta de vontade, força e fé no que me cerca.

Hoje moro sozinha e desfruto também essa paz de estar comigo, me entendendo, me procurando, sem nenhuma interferência. A cozinha silenciou, as meninas casaram, e os amores andam por aí, cada um com seu novo caminho. Os amigos perto ou distantes, vejo de vez em quando, mas permanecem muito presente, disso não abro mão.

Os amores novos que vão surgindo, acolho agora com mais cuidado. Não é qualquer um que me alcança, tem que ter o brilho no olhar que não seja enganador, não me jogo mais no destempero, esse tempo tão consciente passou. Existe um momento em que a gente se deixa enganar, por puro prazer, até cansar e encarar que esse jogo perdeu a graça. Continuo seduzida pelos loucos e sonhadores, pelos desequilibrados como eu, pelos que jorram emoção e se arrepiam com uma cena de um filme qualquer ou uma frase de um poeta, um canto solto na voz que Deus lhes deu e invadem nosso ar, por uma coragem que invejo, por uma obstinação latente, por aqueles que não se rendem ou se entregam. E principalmente pelos que me fazem ser melhor, mais plena, me gratificam com sua luz que doam sem reservas. E têm prazer de receber o que vivi e não posso guardar. Que chegam sem cartas na manga e se houver que seja pelo menos um Ás. Que retire devagar, no momento certo, sem melodramas, ganhando o jogo com a ternura que o Amor merece.

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Fquei seletiva, fiquei exigente, quero cabeças que me deslumbrem, e corações abertos. Fiquei madura, fiquei cansada. Na maioria das vezes concordo, por puro tédio.

Aprendi um olhar indulgente, e uma compreensão que só me abandona quando encarno uma entidade muito longe de madre Tereza. Resquícios do sangue pernambucano, ou da necessidade de gritar: toma cuidado, não sou idiota, cresci.  Não piso em ovos, não tenho esse talento, sou uma estabanada nata, portanto tenho os dias de fúria que jamais me abandonarão. Mas é preciso muita provocação ou presunção de quem acha que está me ganhando duvidando da minha  inteligência. Daí aumento o salto e dou uma “Situada,” palavra que roubei de minha amiga Lilian Caruso, psicanalista e amiga de confidencias nas altas horas da madrugada. Com ela rasgo o verbo sem pudor. Ela sempre consegue me fazer enxergar pontos obscuros, que no calor da emoção, deixei passar. Precisamos de alguém que nos faça não ultrapassar os limites, é com muito humor, cuidado e sensibilidade que ela me alerta, quando estou prestes a extravasar e perder meus estribos. Dependendo do meu estado de confusão vai me dando em gotas, até que eu absorva , desligue ou levante de seu sofá Freudiano com pé em Jung e me jogue na reflexão. Fator da maior importância. A análise foi um marco divisor em minha vida, e aproveito aqui para declarar: Obrigada Lilian Caruso!  Por ser nesse momento  a amiga e terapeuta que preciso. Quando estou em um momento desses, luzes vermelhas se acendem fico louca para entornar um copo ou um balde, mas fico à espera que a emoção me dê uma chance para conseguir a frieza necessária e não deixar a pernambucana encarnar. Todo dia acordo e canto para ela subir. Rezo para conseguir um final feliz.
tumblr_lhwtk2UguW1qb1f3so1_500-thumb-500x347-112258Mas doida como sou, isso me instiga, me faz ficar mais ocupada, apostando comigo mesma, quanto tempo vou segurar. Seja qual for o resultado, já me prometi muitas coisas. Inclusive me rasgar no meio dessa sala, tendo os quadros, os livros, os poetas, as flores, talvez até os vizinhos por testemunha.

Pois é… Nessa agora casa pequena tem muito silêncio, mas o barulho que me invade está sempre me lembrando que minha festa continua. E não será por falta de espaço que ela vai se aquietar.  Ganho a rua, me misturo à multidão, converso com desconhecidos nos bancos da sorveteria, nas cadeiras da praia, nos cafés ou livrarias. Ao redor ouço a música de hoje ou de ontem, sinto o sabor das comidas que inventava, sinto no peito todas as pontadas dos amores vividos, na boca o gosto dos beijos desejados e ganhos, e no rosto de cada desconhecido os sorrisos inesquecíveis que me deixaram tonta de prazer.

Não, não é solidão, é um inventário de quem nunca desperdiçou essa coisa mágica que é viver.

Independe de espaço, em cada casa a gente cria um Mundo, basta atracar o barco jogar a ancora, ficar olhando ao redor e ir contando as marés.

Cancelar os enganos e esperar o arco-íris.

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O PODER DE UMA FOTO

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São bilhetes, cartas, palavras, frases, músicas e poesias que nos tiram o pé do chão. Ou nos desestabilizam. Não é preciso muita coisa, uma imagem, que cai por acaso na sua página, ou você puxa da caixa de memórias, pode arruinar seu dia, ou noite. Mas gostamos de guardar, ou simplesmente ficar ali parada olhando e sentindo a dor crescer. Passado o choque, vem o masoquismo. Queremos olhar, queremos nos certificar que aquela a imagem tem importância mesmo que esteja num passado longínquo, ela vai lhe abalar.

Muitas outras impactam pela beleza, pela sensibilidade, o momento inspirado que passou primeiro pelo coração do fotógrafo, no instante mínimo do apertar de um botão. Derramam sentimento.1010519_507794802607721_125941859_nSão olhares abençoados.  Íntimos da Luz e da sombra. As lentes falam.

Pode ser também uma foto amarelada de um momento feliz, pode ser uma colorida de ontem, que lhe desafia. É isso, as imagens nem precisam de palavras, desafiam.  A gente volta ao passado e o coração voa junto, sentindo alegrias recolhidas ou lágrimas já choradas.

O poder de um registro é muito maior do que se imagina. Porque resume rapidamente uma história, que se derrama como uma ampulheta. Fica ali como tatuagem, apontando a cicatriz.b3c2971d8ce14dfcf6e6874e4019e342

Foram inventadas para isso, para que o tempo se cristalize. As minhas são guardadas em caixas e álbuns, como se fazia antigamente. Arquivadas como preciosos tesouros. Raramente vistas, essa é a verdade. Nesses tempos de modernidade o computador se encarrega de guardar na Nuvem. Até hoje não sei bem o que é isso, porém acho um lugar perfeito. Perdidas no espaço, serão eternizadas, um dia todas serão deletadas pela família, que escolherá uma ou outra só para não perder a identidade.

Todos os seus amigos, seus momentos inesquecíveis, seus amores, suas dores, suas gargalhadas, seu vestido de noiva, o nascimento do seu filho, a paixão proibida, as brigas que causou as casas que habitou as viagens e lugares por onde andou, os abraços, os rostos que acariciou. Estarão ali, numa nuvem, que de repente faz você chover por dentro, ou ficar morrendo da mais pura saudade. De horas agora distantes, tudo  resumido num clique. Registros de amor, de alegria são documentos.  Em mim, o efeito às vezes é devastador. Mas sempre tive paixão por fotografar. E acumulei milhares, o que me faz perguntar para que? Acho que de vez em quando, deveríamos fazer uma faxina e ter a coragem de rasgar, cancelar, porque essa escolha é sua. É sua essa memória. Que será queimada impiedosamente por outros, quando você morrer. Já assisti isso e me chocou.negocio-fotografia

Estou divagando para estancar uma dor. A dor de me deparar com uma foto, que me desnorteou.     Foi bem numa noite, quando distraída abri um livro. A foto essa em questão, naquele momento me esbofeteou , o rosto ardeu ,fiquei sem dormir.  Fez-me supor, imaginar, inventar, desencantar, desconcentrar. Tinha tanta força que me espantou.  Congelei, larguei tudo, desfoquei, inventei. Fiz dela um filme, com final incerto. Por ali, passaram-se anos, dias, garrafas de vinho, champanhe, festas, lençóis amassados, cheiros, gosto de mar, de beijo na boca, som de gargalhadas, um café em Paris, olhares matreiros, sexo, abraços, Pavarotti cantando, Ivan Lins se entregando numa canção. Portas se abrindo num aeroporto, chegada sem partida, segredos, mistérios. Dentro da minha exagerada imaginação uma Vida.Cafe-de-Flore-in-Paris

Era apenas e tão somente uma foto. Reveladora, cruel. Breaking Point.*9576635_7FejQ

Uma resposta e uma indagação. Teria sido certa essa escolha? Ela me trouxe o odor azedo do medo.

Aconchegada no sofá levei um tempo no martírio.  O olhar pousou na garrafa de uísque, um porre cairia bem. Mas o dia iria amanhecer do mesmo jeito e uma ressaca estenderia essa sensação.

Aquela adrenalina teria que ser consumida de uma vez, estava na hora de finalizar uma agonia. Deixá-la entrar, tomar conta, uma noite seria o tempo certo para aquele aborto. Andava grávida de ilusão. Era melhor romper a manhã com o vazio, essa memória estava tomando espaço , se alastrando, incomodando, quase sem intervalos.

Inevitável,  seria preciso  amenizar. Sem levantar do sofá apertei  o botão do controle remoto.the-good-wife-season-7-03 Viajei então para um tribunal em Chicago, lá eles resolviam tudo com acordos, nem sempre lícitos, mentiam se ferravam em nome da verdade, essa obsessão americana, mas o importante era vencer. Eram hipócritas, ardilosos, filhos da puta, e muitas vezes era justamente uma foto que decidia uma vitória ou uma condenação.  Talvez esteja confundindo vocês, mas tenham paciência é um curto circuito, estou no final.

Olhei de novo pela última vez para aquela fatídica fotografia, ignorei a nuvem onde poderia deixar arquivada e sem acordo bati o martelo: GUILT*

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*Ponto de ruptura

*Culpado.

 

 

 

AMOR PROIBIDO

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Nada mais fascinante do que uma amor proibido.  Já vem com apelos, guarda mistérios, chega envolto em magias.  Vem acompanhado de luxúria, erotismo. É o amor mais excitante que conheço.  Tira a cabeça do prumo, perde o rumo, vira obstinação. Porque com ele nasce o pecado que estava ali pedindo para ser cometido. Sobrepõe-se. Todas as resistências vão sendo minadas. Tem um sabor diferente o dobro da adrenalina e a certeza que é só seu. Não pode dividir com ninguém. Talvez a melhor amiga, mas nem sempre.  Calar é a melhor parte. A cabeça é invadida, o corpo sente calafrios só de pensar, você sorri sozinha, canta músicas que ninguém ouve, elas ficam ali dançando na memória, e desfoca do mundo real. Nada interessa muito, a não ser aquele nome, que você escreve sem parar, em papéis ou nas telas do filme que está vendo. O personagem, diz uma frase e ali está ele, mesmo que tenha nada a ver, você acha, identifica, repete a frase, baixinho, ou escreve para não esquecer. As músicas viram trilhas, às vezes uma única palavra, faz com que você se transporte e o sorriso vem logo acompanhar. Uma pessoa está lhe contando uma história seja qual for, pode ser até uma tragédia ou drama pessoal, e você de repente diz alguma coisa sem nenhum sentido. Alheia. Fica assim, alheia, procurando o eixo que só encontra quando vê na sua frente o tal amor proibido. Do qual ninguém faz parte, é seu segredo, é seu abrigo, é seu oásis. Floresce ali clandestino dentro de você.

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O orgasmo é mais intenso, pode verificar, existe o medo que possa ser o último. Todo dia tem gosto de aflição, de esperança, de ilusão, de perdição. Tem gosto de cinismo, tem gosto de barco chegando, de avião partindo, de culpa e vitória.

As horas ficam intermináveis, minutos, segundos, olhar preso no relógio, contagem regressiva. O telefone faz parte de seu ser, dele não se separa. Pode tocar e você não ouvir, pode entrar uma mensagem e você não perceber, pode perder aquele segundo de êxtase. Mobilidade integral. E criam-se códigos para se comunicar.  Adoro essa parte. Sinto-me Marta Hari. A famosa espiã. Nesses tempos de internet ficou mais fácil, às vezes basta um símbolo, e está dado o recado. À proporção que vai se estendendo, a coisa só tende a piorar. Se estiver em casa, aquela casa já não é mais sua, fica estranha, porque você não mora mais ali. Mora numa ilha deserta, rodeada de paisagens esplêndidas, pássaros que cantam  com céu de  luz , cheio de cor. Sem marolas sem nuvens e não importa a situação, o paraíso é ali. Numa mesa de bar, num colchão no chão, numa beira de calçada, num motel luxuoso, numa pensão de quinta categoria, ou em Paris.18301539_10213010500367154_365450763872986768_n

Se um dos dois tiver outro relacionamento, existe ciúme, desespero, saudade, mas o “outro” é ignorado assim que aquela porta se fecha e fingem que nada mais existe. Porque três será demais e inconcebível. Seria invasão.

Por ser proibido a privacidade se faz necessária, para que perder tempo com sentimentos que não lhe pertencem? É preciso ter manha, é preciso uma entrega mesmo temporária é preciso morrer a cada despedida, mesmo que o novo encontro seja daqui a algumas horas. Essa trégua jamais estará vazia.

Há um fio condutor sempre, mesmo que haja distância geográfica. Acontece.

A gente fica andando pelas ruas, pensando que àquela hora ele também estará pisando outras calçadas, vendo outro mundo, mergulhando em outro oceano olhando outras mulheres, que não lhe causam ciúme, porque em cada rosto terá um traço seu.  Outros você também enxergará que nada lhe dirão. Nenhum vai lhe olhar como ele. Aquele olhar está preso dentro do seu. Imaginação.    O amor proibido se alimenta de imaginação. É cancelar a realidade. E como isso faz bem.

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Não existe preconceito, não pode existir muito pensar, anule-se o certo e o errado. O certo é apenas viver essa história que vocês dois inventaram e não sabem nem bem por que. Pode ter sido apenas num olhar, num encontro de mãos, numa palavra dita com precisão, num abraço casual, num golpe de admiração, num sorriso cheio de malícia, que veio ao encontro de sua insatisfação. Tinha febre guardada, tédio escondido, ânsia de fantasias, delírios e loucura que procurava um par.

O amor proibido você até sabe vai lhe cobrar o preço da espera, da dúvida, da angústia de tanto querer.  Você vai ignorar todos esses sinais, vai mergulhar nessa tentação. Cada minuto vai valer a pena e jamais se perdoará se não tentar. Além de proibido, se tornará mal resolvido e com isso é bem mais difícil de viver. Melhor pagar o preço, a emoção agradece por ter sido acionada e embalada nesse desatino.

A história está repleta de amores assim: Romeu e Julieta é mais romântica delas, Wallis Simpson e Eduardo VIII-Meu Reino por Um Amor- fez tremer a Inglaterra- na literatura, Capitu e Bentinho, na lenda de Lancelot e Guinevere que incendiou a Corte do Rei Arthur. No cinema Casablanca que nos faz desejar até hoje que Elsie nunca tivesse entrado naquele avião, deixando Rick naquela neblina.  Nós sempre teremos Paris resume uma triste despedida.  Ou Pretty Woman, que teve nossa torcida para aquela garota de programa, ficar com seu príncipe encantado. Ficou… E todas nos sentimos princesas.

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Mas vamos para tempos modernos.  Recentemente tomamos conhecimento do mais forte desses fascinantes romances, que deslumbra o mundo nesse momento. O do Presidente francês e sua professora mais velha.  Macron e Brigitte amargaram a espera, mas decidiram pela coragem. Esse é o perigoso amor, que começou na cabeça. Ela sequestrou a dele, e ponto final. Buscaram sua fantasia e de proibido passou a ser permitido, exemplo que no amor as barreiras podem ser derrubadas, basta haver verdade, força e vontade.

Muitas vezes um amor que tem inicio numa sedução imensa, acha seu caminho, virando a página da vida. O amor não vem com bula, nem manual, se vale a pena monte o seu.

Antes de tudo, porém, esse amor precisa ser altruísta, que os amantes riam dos problemas, que o drama seja evitado, que sobre delírios, cumplicidade e alegria de viver, sem prazo de inicio nem fim.  Afinal se fosse para ser medíocre, não precisava de tanta tenacidade e tanto desejo amordaçado.

Todas nós já sentimos uma vez esse gosto único. Eu já tive muitos amores proibidos, na ficção quando representei (Engraçadinha e ABC do Amor) e na vida real. Quase todos se tornaram permitidos, modificaram minha vida, tive que fazer opções, porque tenho essa mania de ser inteira. Mas claro que existiram exceções. Alguns deixei pelo caminho. Já chegaram com prazo de validade.

 

Uma rebelde não estaria completa se não sentisse atração pelo proibido ou impossível. Precisa acordar diariamente com um desafio, uma bandeira na mão, que vai desfraldar antes mesmo de escovar os dentes, antes do primeiro gole de café, antes de abrir as cortinas do quarto escuro, antes de colocar lenha naquela causa que vai virar sua fogueira, aonde vai por livre e espontânea vontade arder.

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E se seu amor proibido passou para a coluna do permitido, cuide dele, não esqueça quantos porres tomou, quantos noites ficou sem dormir, como se questionou, como foi buscar coragem para encarar, por quantas provas passou, até resolver pular aquela ponte de mãos dadas, simplesmente porque concluiu que sem ele não poderia mais viver.

Porém se sua história não teve um final feliz, guarde-a muito bem, confesse que viveu. Vai beber mais um pouco, chorar pelos cantos, alugar uma amiga, sentir a vida morna, morrer de saudades. Vira memória. Vira crônica, vira conto, vira poesia, vira música. Nada é para sempre.

Até esbarrar em outro homem que seja competente, paciente ou simplesmente tão encantador que lhe desmonte de novo e não seja proibido, por favor, de preferência.   Precisa-se de intervalos porque lembrando o poeta, o coração não é de ferro, e não aguenta sangrar todos os dias.

Tire as correntes daquele amor proibido, entenda que a liberdade procura espaços e guarde-o na memória que com muita imaginação criou uma realidade profunda. Que foi só sua, seu mistério, seu segredo, seu Santo Graal.

 

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LEVEMENTE SURTADA

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Aos pulos.   Assim que estava esses dias o desobediente coração… Aos trancos e barrancos.

Queria escrever, queria trabalhar, queria ser normal. Mas tinham ondas, muitas que iam e viam numa total desarmonia. Muita adrenalina, coisa de incomodar. Pra que isso? Para e se pergunta no meio da sala em voz alta. Me dá sossego , preciso raciocinar, assim no tumulto não consigo  e essa emoção descabida vem de onde?

Do passado, do presente ou do futuro? Mistura tudo e acampa, é assim? Me deixa pelo menos saber, o tempo desse verbo. Futuro não existe, a Deus pertence, grita uma voz que parece vinda do além.

Meu Deus! Então ainda por cima, estava ouvindo vozes?  Seria queimada numa fogueira.

Teve vontade de beber às 4 horas da tarde. Mas como?  Isso está fora de ordem.  É surto? Parece né? Café… Toma café.  Ou chá?  Melhor chá… O chá dos ursinhos que  fazia sempre para curar as dores de amor de suas meninas. Um mix de ervas calmante. Come bolo não, ouve a voz, engorda.

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Desliga essa porra de celular.  É uma enchente de mensagens, ninguém fala mais. Só tecla. Dia todo, desde cedo. Mas pensando bem, melhor assim. Se for falar, está tão descontrolada que ficará duas horas na conversa com a amiga paciente. E conta tudo, repete, dá gargalhadas e a louca do outro lado também. São cúmplices total.

Precisa olhar a agenda. Organizar para não perder os compromissos. Tá bem… Numa rápida espiada já viu. Tem um que já perdeu. Risca, rabisca, faz círculos vermelhos ao redor do dia, tem calendário, papéis, todos repetindo a mesma coisa e nem assim. Inventa tudo. Desce correndo vai à padaria, compra pão que fica ali e endurece sem ser comido. No dia seguinte murmura: vai virar torradas.

O livro está atrasado. Vamos dar uma arrancada? Dura um segundo e o pensamento atravessa feito raio. Pra que tanta pressa?  Nem tem editora.

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Desliga a TV. Está pegando fogo a cidade, vandalizam as ruas. E daí? Já repetiram isso muitas vezes.  Está assim, já se sabe. Para que essa sede de informação? E Lula vai depor? Não, Moro adiou. Como foi? Jogaram mais uma bomba na França?  Jesus! Quando isso vai parar? E o candidato à presidente da França casou com uma mulher de 64 anos… Ele tem 39. Disso gostou. Parou para ouvir. Então o mundo romântico ainda tem vida inteligente?  Lembrou-se de Edith Piaf e Theo. Os franceses costumam amar mulheres mais velhas. Tem vários exemplos. Melhor mudar pra lá pensou. Gargalhou sozinha.  Sentou e mudou para o canal de música. Música acalma relaxa. Nem sempre. Já começou tocando uma inconveniente. Que lembrava um momento muito bom e distante. Deixou-se ficar ali, na memória, cantando junto. Era de um amor? Mas claro né? Tem sempre um romance escondido nessa cabeça de vento. Sem cura. Na seguinte, quis chorar.  Ah não! Assim não dá. Desliga a música. Chorar às 4 horas da tarde por um amor que já ficou largado lá no tempo muito passado e tomando chá? Espera lá, essa moça tá diferente como diria Chico Buarque. Nem eu conheço mais.

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Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela..*  Menos, menos.

Essa agonia pela vida diariamente, essa teimosia em carregar o sentimento do mundo, como se fosse acabar amanhã. Talvez hoje, quem sabe? A amiga chama para almoçar, a outra para jantar, tem lançamento de livro, tem tanta coisa que não dá nem tempo de fazer.  Na verdade gosta muito de sair, mas sente saudades de casa. E isso tudo gera culpa ainda por cima.  Anda vagabunda. Melhor fugir. Ir para algum lugar sem interesses ao redor, sem TV, sem telefone… Para conseguir  deter esse furacão que lhe pegou na virada desse mês. Sempre desconfiou que não batia muito bem. Mas estava administrando. De repente, perdeu as rédeas. Então lembra que não tem para onde fugir. Se for vai ficar agoniada querendo voltar. Meu coração selvagem tem pressa de viver.*

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É tanto sentir! Um exagero. O telefone toca. Jurou que não iria atender ninguém, estava tentando salvar o dia. Mas de rabo de olho viu quem era. O amigo que está precisando de um suporte.  Num gesto rápido deslizou o dedo pela tela, não podia ignorar ,era seu maluco de estimação. Virou psicóloga de plantão. Aliás, sempre teve essa mania. E como é intensa, verborrágica e desbocada, acaba falando tudo que lhe passa pela cabeça, sem dar nem tempo de filtrar e numa dessas acaba acertando. No final da conversa com certeza já está ilustrando as coisas com alguns palavrões. Acha mais fácil assim não fica subtendido. Duas horas depois, o amigo está ainda pior, sem respirar, coitado, porque ouviu tudo que precisava ouvir naquele momento de stress enfaticamente e ela estava rouca.   No entanto estava tudo resolvido. Confiante, desliga convencida que ajudou. Não sem antes ouvir: Você é minha âncora! Imagina… Se visse meu estado agora, andando pela casa desorientada, talvez mudasse de porto.

Não satisfeita, inventou uma paixão, por um Turco, e achando pouco alardeou no  facebook. As mulheres ficaram loucas e começaram também a amar o Turco. Que é um Deus. Uma Série, gente um seriado novelesco da  Netflix, que  tinha descoberto. E que tem tudo: romance dos bons, traições, invejas, fofocas, amor impossível, guerra e aquele homem ali no meio que fulmina com o olhar azul, derruba qualquer uma. Tudo falado em turco, com legendas claro. Perdeu muitas noites, obcecada por Seyit e Sura. E pior começou a querer entender a língua. Torcia para acabar.  Precisava dormir mais cedo, talvez para o dia render, e não ficar assim. Pirada pelos cantos. Seria culpa do turco?  Surto é surto.  Kivanc Tatlitug  é o nome desse ator do qual nunca tinha ouvido falar.Ficou fan. Já descobriu outra Série que ele também protagoniza. Nessa faz um  poeta, ator, tuberculoso e  também apaixonado. Essa vai ser dose. Ele está mais jovem e faz um frágil… Preferiu ficar ainda com a magia de Seyit. Por um tempo.

Até o quase namorado já tinha ligado um dia: Quem é esse Turco?

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Meninoo ! Gritou. Tá maluco, leia direito. É uma Série.  Está regulando meu tesão? Que ousadia é essa? Tenho tesão por quem quiser e para sua sorte esse é  por um homem  dentro de uma história. Ficção! Entendeu? Vai ter ciúmes de ficção também?  Desligou irritada.   Não dá certo ter namorado que tenha facebook, pensou em seguida. Acho melhor deletar .Não vai dar certo, esse ainda está com a  cabeça  retardada, conheço bem isso.  Melhor continuar sozinha.  Ou ir morar na França.

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Deus dai-me paciência! Era assim que as mulheres da série falavam quando não estavam aguentando seja lá o que fosse. E passavam a mão pelo rosto todo, como se estivessem lavando.

Pegou-se imitando. Depois de ficar nessa enrolação dia todo, viu que anoitecia. Bebeu mais chá, e resolveu comer o bolo. Foda-se para o engordar. Passaria fome dia seguinte.

Finalmente  o seriado acabou. Naquele dia perdido, perdeu também a noite, mas por uma boa causa. Ficar sonhando acordada com aquele homem irreal. Desligou triste. Era uma despedida.  Concluiu que os grandes e fortes amores são e serão sempre impossíveis. Já tinha provado desse fel. Mas teimava em desconfiar que não fosse sempre assim. Alguns venciam todas as barreiras e atravessavam os desfiladeiros mais sinuosos para um happy-end. Porém esse final lhe deu certeza.Nem em filme minha cara. Nem em filme.

Foi nesse momento que entendeu tudo. Tinha mania de heroína. Esse lado atriz   atrapalhava um pouco. Vivia romanceando até o suco que bebia. E nesse momento estava dentro de um amor impossível, mas tão impossível que dava dó, ou nó. Misturava vida real e ficção.

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Ajeitou os seis travesseiros, que tinha na cama, para jogar tudo no chão na hora de dormir, agarrou o seu preferido, engoliu seu lexotan , ligou o canal a cabo e começou a zapear á procura de um filme ou filmes, pois também tinha essa mania, via vários filmes, aos pedaços, e entendia tudo. Era tão doida que um dia seu antigo marido lhe perguntou: Como você pode entender filmes começados, filmes terminando, no meio, que loucura é isso? Me explica.

É que- respondeu tranquilamente- deles todos, faço apenas um.  Tenho minhas histórias que alinhavo, usando os personagens que mais me tocam.  E convencida continuava. Esse cara, o marido em questão, nunca se conformou.

 

Nessa noite, desse dia perdido, pegou a cena de Perfume de Mulher, a do tango, a emblemática que já tinha visto cem vezes, uma das melhores, que considerava ícone cinematográfico dentre outras, e a mais perfeita atuação, do Al Pacino que cego dançava lindamente imprimindo  incrível sensualidade e delicadeza. Esperava sempre a virada da música, quando aumentava e repetia o tan tan tan gritando e gesticulando dando voltas com o corpo  no compasso.

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Lembrou ainda que Scarlett  O’hara   em  O Vento Levou, era uma impossível  e teve um amor impossível. Elas carregam esse desassossego.

Fechou a mão sobre o travesseiro como se estivesse arrancando o rabanete da cena simbólica, e já misturando com a outra, a cena final, murmurou antes de apagar:

Amanhã será outro dia!

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*Zeca Baleiro

*Belchior

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O CAOS INSTALADO

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Olhando-se no espelho as olheiras confirmavam…  Lá dentro o caos fazia morada. Noite mal dormida.

Uma sensação de vertigem fazia com que ficasse ali parada, procurando um caminho, uma brecha, uma saída.

Escrever estava se tornando um fardo. Nenhuma inspiração ou tantas que se sobrepunham e de repente desapareciam. O que era cura, prazer, virou pesadelo. Por onde começo? Deu curto circuito. Ficava ali olhando as letras que demoravam a formar palavras. E era tudo o que precisava: palavras. Onde teriam naufragado?

No dia a dia de noticias eletrizantes bombásticas, no país que derrete literalmente e nos humilha todo dia com os demônios nos envergonhando, nos achincalhando, donos de um poder que nos causa náuseas e dá corda a bipolaridade geral, uma nau afundando e nós a deriva, perdidos, dragões soltando fogo pelas narinas, com o ódio no leme. Mas não, aqui não quero falar sobre isso. Nesse espaço reina a alma que não aguenta. Os sentimentos mais bonitos é que devem pegar as rédeas. Mas de onde veio esse desanimo?

No coração entupido e devastado por tantas emoções? Na desmotivação que se apresentou de repente? Ou apenas nas lembranças de sentimentos passados? Que estavam ali pedindo licença para entrar, e sem eles ficava vazia. A pele estava com manchas, o sol do qual não abria mão, castigava, a última foto denunciava rugas com as quais nunca se importou. Por que agora lhe causava certo desconforto? A idade? Não, o tempo. A incerteza do quanto mais lhe seria dado. O tempo é apenas um código cifrado. É o vilão .

Vamos reagir? Reconheceu ali uma vontade. Já era alguma coisa. Aprender a viver com o que não veio, o tão pedido e desejado, e ainda ocupava os santos implorando.

Mas era proibido desistir. Progresso. Tenacidade, persistência. Repetia baixinho enquanto ouvia o barulho das mensagens que entravam no seu celular jogado em cima da cama. Nenhuma que fosse a esperada.  Será?  Melhor conferir. Sentia a ausência de alguma coisa que desorganizava e precisava dessa confusão, do tumulto, mas não desse caos apático.  O rebuliço das fortes emoções, pensamentos nada perfeitos, essa energia que destravava. A sensação de festa interior.

Esse era o seu chão. Mas precisava dessa luz interna, que chega e faz com que a musica toque. Sentia-se quase uma espiã. Desejo de ficar ali na toca. Atender telefone queria não. Mas essa fuga era de que ou de quem? Sabia lá… Mas precisava também desse mistério. Dormia, acordava cheia de ideias, esperando as surpresas. Esse signo de fogo adorava uma sofreguidão.

Depois de um tempo qualquer, resolveu olhar lá para fora. O dia estava azul.*

43540131_40_22730908_7856O que é isso criatura? Ouvia o grito do azul. Vai perder isso? Me dê apenas um motivo!

Vamos botar em prática a reação. Arrumar a casa, essa bagunça não combina com você. Lugar de calcinha não é no chão.

sala mom3            Esse apartamento é pequeno para tanta vontade. Tem uma multidão nesse momento pelas ruas cumprindo suas tarefas, andando à toa. Não importa. Estavam vasculhando o mundo. Vá lá se misturar. Organize essa alegria fugidia, esse confinamento. Vai se arrepender quando o sol se por e descobrir que não viu.

Onde colocou o tênis, aquele confortável e bem velho? Na procura, passa pela cozinha e pega mais um café.  Reler esses cadernos em busca dos capítulos do tal livro que por enquanto não passa de desejo foi um erro. O detonador.

mulher-tomando-cafe-pensando-vida-bf-130-7523           Ali entendeu que nada será mais daquele jeito.

Descobriu? Está procurando a felicidade onde não pode mais alcançar? Cravando o punhal no peito ,quer o drama. Que ver o sangue jorrar porque só desse jeito poderá sentir de novo aquilo tudo.

Nas palavras que estão hoje lhe faltando, no amor que de tanto encantamento se afogou, na separação que escolheu, num momento raro de preservação total. Esse está travado, lhe pregou na cruz, tire esses pregos bíblicos e não traga agora à tona esses segredos. São eles que estão causando essa turbulência, neles você ainda não está preparada para mexer. Nada é igual. Nem mesmo você está igual. A que narrou tudo aquilo está igual? A parte mesquinha e canalha foi trabalhada e o resultado foi uma evolução. A parte bonitinha e generosa não é hoje mais evidente? Essa paralisia também não é comum. Daquela do passado ficou o exagero, e as muitas que lhe habitam.

Come pouco, emagrece, engorda, tem insônia, bebe de vez em quando, promete todo dia parar de fumar, acolhe os amigos, ama demais, sofre demais, grita , se empolga, chora por nada. E é esse corpo povoado que traz a fadiga.

O café acabou e tomou uma decisão: vencer a si mesma. E essa é uma guerra de respeito. Só de chicote na mão. Fica com o presente que está vivendo que já é muito.

Achou o tênis? Não faz disso desculpa. Tem um par de havaianas bem ali olhando para você.

11428497_931895343539745_4211758736318914654_nEnquanto se vestia os pensamentos continuavam atropelando: acho que vou morar no mato. Assim morro mais depressa. Não, no mato não, detesto por que não perto do mar? Me deslumbra e morro mais devagar.

No entanto foi a noticia da morte de Ferreira Gullar que salvou. Na televisão ainda ligada repetiam a noticia e sua poesia. Uma parte de mim é permanente, a outra se sabe de repente. A poesia nasce porque a vida é pouca. Está fora do alcance o meu fim… Foi uma pedrada na cabeça embotada.  Bateu a porta e saiu. Percebeu como era divertido viver. Estava ali olhando o céu do Rio de Janeiro, Cristo Redentor sem nuvens. O calor sufocava.

Ao passar pelo jornaleiro gritou: Antônio guarda o meu jornal!

Deu de cara com o mar, e então só lhe restou agradecer… sou uma pessoa privilegiada, tenho aqui bem perto de mim, um festival de  beleza, que me incendeia .Larga o drama, hoje não, tem muita cor essa  manhã, não combina.

Lambuzou-se com um sorvete de maracujá ,  os olhos pregados no infinito.*

10364206_1083281268364558_7698448469823919061_n.jpgLili

Sentia o caos se despedindo.

 

*Quadro Mulher na Janela de Picasso.

*Foto de minha amiga Lilibeth Azevedo gentilmente cedida por ela.

SOBRE O QUERER

15241362_10207581258038766_2793101849259251033_nNão quero mais falar de fundamentalistas, de terroristas, de fanáticos que aterrorizam o mundo com certezas espúrias, dos que antecipam os tempos de medo, dos invisíveis dizimados sem dó nem piedade, dos degolados por bárbaros em frente às câmeras de TV, do mundo com valores invertidos, de religiões que geram atraso, de pessoas que fazem da crueldade seu meio de vida, de canalhas que se vestem de mentiras o tempo todo, de pessoas e mentes tão atrofiadas que acham por bem acreditar, por preguiça de pensar e assim contaminam multidões; de uma humanidade cada dia mais frágil e insolente, e alheia. Dos que se dedicam a teorias de conspiração, dos pais que geram filhos para depois assassinar cruelmente, de mediocridades irritantes, de preconceitos que não se derrubam… Daqueles que julgam o próximo como se fossem deuses puros; de retrocessos na sua história perdida e na história que deixaram de construir por egoísmo, incompetência, prepotência e inveja… Dos acomodados, dos covardes dos que ficam em cima do muro, os que não honram a vida como presente, dos que desprezam uma dádiva chamada sentimento.  Dos sem tolerância e dos que toleram demais por inércia, dos que não têm, dos que fingem ter, dos que ridicularizam quem tem.

Transformaram o coração em ferro, pedra, lixo descartável.

Cansada de discordar, também não concordo. Fico assim, um vulcão prestes a explodir, mas que explode no meio do meu coração, das minhas entranhas, das minhas tripas, no meu cérebro que procura diariamente acordos para manter a sanidade.

Isso tudo Não Quero!       Quero ir seguindo o que me resta de amanhecer, quero anoitecer sem culpa, com a cabeça deitada no meu travesseiro ortopédico para salvar o pescoço, com a consciência leve.

Quero acordar e me achar bonita mesmo que enxergue rugas. Quero ter lindas viagens dentro de mim, fazendo uma ciranda com os que amo.crie-lacos-com-as-pessoas

Quero os meus prazeres, todos os que meus desejos apontar. Quero limites, respeito, me encantar com poesias músicas e pessoas do bem. Quero me surpreender com admiração pelos que estão em sintonia com os valores que somam.

Quero enxergar e conseguir sentimentos delicados que embelezam e amenizam o insuportável para mim.

Quero os diferentes que se levantam todo dia com vontade de transformar. Qualquer detalhe… Os desarmados, os que perdoam e são perdoados, não por cansaço, mas por merecimento. Quero um amigo que perceba, porque simplesmente está atento.

Quero os que não humilham, porque essa é uma atitude desprezível. Todo ser humano merece respeito.

Quero os que saibam as diferenças, os que promovam mudanças, os que possuem o mesmo olhar, o mais lindo de todos que é o da Generosidade.

Quero um mundo onde esses se encontrem e se reconheçam.

Talvez esses meus quereres sejam utópicos, mas são os que habitam em mim.

Quando o coração transborda a língua fala. Quixotescamente me divido em total inquietação.

“Mudar o mundo meu amigo Sancho, não é Loucura, não é Utopia, é Justiça”. 

*camiseta-estampa-dom-quixote-e-sancho-panca-D_NQ_NP_11761-MLB20049227914_022014-OCervantes.

 

MANIA DE CASAR

                                                         

Manias são manias…  Não se explica.  Uma das minhas é casar.

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Não perguntem por que. Não encontrei resposta até hoje.  Seguia a vida me apaixonando e achando que valia a pena dividir o pão nosso de cada dia, o colchão da cama king -size, a casa florida, o drinque da noite, as ideias compartilhadas na intimidade total, a cumplicidade, a preguiça matinal e a delicia de encontrar logo ali, bem do lado um gostoso bom dia. Muitas vezes, um sexo revigorante antes do café da manhã. Antes da praia, antes do trabalho nada deixa uma pessoa mais motivada. O dia nasce mesmo feliz.    E todos os meus maridos foram devidamente amados e me amaram muito bem.  Até o dia que o cotidiano ou o ciúme ia arruinando os momentos.  O casamento, ou qualquer relação não vem com anulação de vida própria, de liberdade, de abrir mão de ser quem você é.  Aí é que pega. Ou se garante e segura seu homem sem ataques constantes, ou dança.   Serve para os dois lados. Cuidar. Palavra chave. Bom humor, sorrir junto, ter prazer na volta para casa. Iluminar cada dia mesmo os mais sombrios, com atitudes e palavras doces. Um quebra pau está inserido vez em quando e se necessário. Faz parte de qualquer proximidade maior. Brigamos com os amigos, a família, discordamos ninguém é vaca de presépio. Mas tente-se manter o limite. Qualquer ultrapassagem é a ruína.  As palavras duras e cruéis ficam. Não se pode retira-las. Vai se formando o famoso pote de mágoas. Que um dia explode. Inimigos já temos ao redor, não precisamos dormir com eles.noivos-melhor-lista

Mas confesso que já dormi. Equívocos também não estão descartados. E dentro de um casamento, fica mais difícil resolver. Sempre soube disso, mas não hesitava em casar. Queria essa emoção que concordem é grande. Casei todas as vezes que achava o homem sem o qual pensava que não poderia sobreviver. É sempre assim. A gente pensa que dessa vez será para sempre.

Casei e descasei seis vezes, se está mesmo certa essa conta. Nunca fui santa e entre gueixa e guerrilheira concordo que não era fácil para eles. Minha intensidade era complicada, acompanhar minhas invenções, minha sede de vida, minhas indagações, uma roda contínua de alegria que os deixava tontos. Mas ser infeliz nunca esteve na minha dieta.

Então, era assim: estou infeliz, não fico. Arrumavam-se as malas e com aviso prévio, sempre dei aviso prévio, era justo, porém no dia do basta eu decidia.  Era chegada a hora de mais uma partida.basggg

Tive todas as personalidades. O chique colecionador, o lorde socialite, o publicitário genial, o jogador Bon  vivant, o economista lindíssimo porem bipolar, e o publicitário romântico por excelência. Não nessa ordem. Então tem uma preferência aí notaram? Dois economistas e dois publicitários. Nenhum ator. Não casei com nenhum ator, fiquei no “quase” com Gláucio Gill que morreu antes de nos casarmos. Mas namorei alguns.  Talvez por ter deixado a carreira cedo, não aconteceu.  Ficaram no palco do romance apenas. Mas como essa memória quase desmemoriada não é uma deleção premiada, para usar a palavra mais recorrente nesse momento, não citarei nomes. Saber amar também é uma forma de arte. É como colocar uma venda e ser levada para um mundo só seu. Onde tudo é perdoado e tudo é permitido. Onde todas as cores têm mais intensidade e todas as palavras ganham muita profundidade.

A gente consegue ficar impermeável, absoluta, única e sente no estomago frios inexplicáveis, no coração a pulsação incontrolável e no corpo o desejo que será sempre maior do que tudo. Maior do que qualquer razão, maior do que o medo que será transformado em um furacão, uma tempestade, um terremoto, uma invasão. O Amor é devastador e nos coloca na lona, no tatame, no limbo, no paraíso, no céu ou no inferno e pior de tudo sem que a gente perceba ou se incomode. Rouba todos os nossos sentidos. É o princípio o meio e o fim. E acreditem, é o único sentimento maior que o ódio. Enquanto vivo vence e seremos vitoriosos.

Uma arma letal. Que sempre foi a que me levou para o altar.

 

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A LIBERDADE DAS PALAVRAS

 

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Me  deixa só… Com minhas fantasias, meus sonhos, meus delírios… me deixa só… Finalmente dando nova forma a meu corpo para que ele acompanhe o tamanho dos meus pensamentos, aqueles que sempre estiveram a salvo de qualquer invasão e que jamais ninguém poderá trancafiar, nem censurar, nem apagar.

Me deixa só para que eu dê passagem a minha inquietação que foi adormecida, que foi adiada e me fazia tanta falta. Para recuperar o olhar, o brilho do sorriso e o tesão na pele.

Me deixa só porque eu preciso libertar as palavras, todas as palavras que me foram cassadas.

Os palavrões, as reticências, exclamações, as letras maiúsculas, as obscenas. Quero abusar!

Finalmente estarão libertas, soltas, preciso ordená-las, ainda não se entendem… Por serem muitas, as cortadas ou cortantes perdidas ainda estranham o motivo porque foram vencidas pelo silêncio. Estão em revolução.

Tenho que ter cuidado, algumas se tornaram perigosas ou mesquinhas. Pratico o exercício da sutileza precisam encontrar o tom.

Me deixa só, porque meus delírios precisam se acomodar me alimentam, me impulsionam e sobrevivo;habitam  tantas dentro de mim que preciso me organizar, para não mais  as perder.

Nas palavras vou tecendo meus sonhos e vou carregando-os na bolsa, no bolso, na rua, no metrô, na praia, no botequim, na sala, e no elevador.  No travesseiro me dominam e na cama me fascinam.1914069_721300811339792_587561158429800379_n

Mas por favor, mantenha distância… Alcançá-las é tarefa para poucos, só os que possuem no sangue essa mesma cor, esse ritmo, esse furor.

Então agora me ouve… Para de falar… Minha cabeça está povoada não de fantasmas, mas de personagens, procurando sua luz, sua deixa, sua história.

É agora posso revelar: sou atriz! Abri meu baú. Dele tiro panos bordados, tecidos transparentes, fico nua e troco de pele.

Nesse desassossego, vou remendando, construindo aquela que de tanto sentir, foi  ficando sem voz,  mas continuava  mesmo sabendo que não era ouvida.   Foi quando de repente gritou: Foda-se! Fo-da-se!

E foi a palavra que a salvou. Um grito que espantou o medo.  Escapou e somente esse pensamento a libertou, ainda atônita tomou-se de euforia.

Hoje fica olhando para aquela fresta por onde passou e custa a acreditar.

Nela escreve… Palavras, muitas palavras sem censura e acolhida, vive delas.

Sim, essa sou eu povoando meus dias, com histórias que estavam guardadas e com as que ainda estão por acontecer. Todas comigo, sempre estiveram.

Portanto, me deixa só, tenho um encontro marcado… Preciso cuidar do cabelo, da pele, comprar um batom, mudar o esmalte, uma saia rodada, uma blusa colorida, tomar um porre, ouvir uma música, acabar aquele livro, ver um filme, dançar, abraçar um amigo, celebrar com as amigas, acudir quem for preciso, ouvir todos os sons: do mar batendo, das gargalhadas, dos passarinhos cantando, e de uma voz… tenho carência de voz.

Por favor, então entende: me dá sua boca, segura minha mão, não pergunta. Estou em constante movimento, não existe controle, são muitas as circunstâncias, as ideias me  atropelam,  não  existem verdades, somente buscas,me defendo, mas avanço ,  as mudanças doem,mas a gente  veste uma  armadura, cresce,  e a vontade de ser inteira vence. Agora você já sabe, tenho muitas vidas me esperando, não, não pergunta, embarca, estou atrasada.

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